29 de agosto de 2004

E as Olímpiadas, hein?
Pronto, acabaram-se as Olimpíadas. Para desespero de uns poucos e alívio de outros poucos, a "festa do esporte" em Atenas foi concluída com saldo bem positivo para o Brasil. Aliás, "festa do esporte" é daqueles clichês bestas aos quais nos acostumamos sem perceber; muito parecido com o igualmente detestável "festa da democracia" - alguém já viu um eleitor comum, como eu ou você, feliz na fila de votação? - ou "o maior espetáculo do mundo", para se referir ao Carnaval. Falando no malfadado Carnaval, descobri que a relação das pessoas com as Olímpiadas é bem parecida com a que temos com a festa de Momo. Quem gosta de verdade, vira zumbi e assiste a todas as transmissões de todas as modalidades possíveis, seja uma partida de Badminton entre Papua Nova Guiné e Kiribati às três da madrugada com narração de Galvão Bueno. Já a turma do contra finge que não é com ele, esnoba os atletas, diz que o Brasil nunca vai chegar lá e aproveita para falar mal (de novo) do Galvão Bueno.
Como já disse, sou da turma que despreza o Carnaval. Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre as Olimpíadas. Confesso que parei em plena tarde de trabalho para ver a Daiane não conseguir a sonhada medalha e vibrei com o ouro obtido no vôlei masculino - eu sempre gostei de vôlei e por um curto período em minha fascinante trajetória esportiva, fui um jogador ligeiramente acima da média, mas esta é outra história ridícula que, felizmente, vocês jamais lerão.
Mas que enche o saco, isso enche. A quantidade de clichês despejados por narradores, comentaristas e outros bichos esquisitos do esporte supera fácil os blogs brazucas. Toda propaganda resolve tomar uma carona - e tome "Uma Olímpiada dos Preços Baixos!", "Medalha de Ouro em Liquidações!", "Suba no pódio das ofertas!" nos ouvidos. E haja paciência para ver entrevista com os primos dos vizinhos do sobrinho do irmão do pai do atleta que levou o bronze, todos chorando em sua casinha perdida em Tinguaçu do Norte. Felizmente, uma coisa boa esta última competição nos trouxe: descobrimos que tem gente mais chata do que o Galvão Bueno (de novo!!!) narrando jogos diversos.
Por outro lado, o esporte sempre foi correia de transmissão das formas mais tolas de patriotismo (preciso citar Samuel Johnson?). O ministro dos esportes e sua comitiva lá em Atenas não me deixam esquecer de que a campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro" vai ganhar ainda mais fôlego.
Deve ser por isso que o Diogo Mainardi, na Veja, disse que iria torcer contra.

Nota final - Alguém, por favor, avise ao padre irlandês Neil Horan que os melhores lugares para seus protestos é na Irlanda do Norte, no Afeganistão ou no Iraque. Como fez no ano passado no GP de Silverstone, Horan invadiu uma prova esportiva e conseguiu a proeza de avacalhar o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, que estava em primeiro lugar. Se Vanderlei iria mesmo levar o ouro ou não, ninguém jamais saberá, graças ao genial Horan.

19 de agosto de 2004

O perigo das palavras
Dando um tempo na polêmica sobre os projetos claramente autoritários de controle estatal sobre a produção cultural e o jornalismo, Lula foi se encontrar com o presidente da Costa Rica, Abel Pacheco de la Espriella, na República Dominicana - que, acredito, deve ser o penúltimo país mais miserável da América Latina, só perdendo para o Haiti. Pois Lula disse, em tom de brincadeira, segundo seus assessores, que fez "[...] agora uma viagem ao Gabão e fui aprender como é que um presidente conseguiu ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição”. Para quem não sabe da missa metade e só balança a cabeça para o que Jornal Nacional noticia, o tal presidente do Gabão (um poço de miséria assustadoramente igual a quase toda a África), Omar Bongo é um ditador com mão de ferro que não larga o poder há longos 37 anos. Acusado de assassinatos, prisões por motivos políticos e outras aberrações típidas de dirigentes vindos da escola de Fidel, Idi Amin e Stálin, serviu para (mais uma) piada sem graça alguma do nosso presidente.
Numa semana em que o governo acenou com tentativas de controle sobre a produção cultural, nada poderia ter sido mais despropositado.

9 de agosto de 2004

A Coluna
A COLUNA nasceu para impressionar. São textos rápidos, diretos, inteligentes e objetivos sobre todos os assuntos do momento e de grande alcance. Críticas e comentários com enfoque discutível. Do amigo Luiz Gallo, segundo o próprio - e vale muito a pena ir visitar este seu blog: http://acoluna.blogspot.com

30 de junho de 2004

De Marshal Law a Arthur Clarke e intenções falaciosas
Uma das minhas HQs favoritas é Marshal Law, criada pelo roteirista Pat Mills e pelo traço furioso e anguloso de Kevin O´Neill. A graphic novel foi publicada em seis edições pela Abril lá pelos idos de 1990 e fumaça e é bem difícil de se encontrar em sebos da vida. Conta uma história complicada, curiosa e ácida, uma espécie de Watchmen se fosse escrita pelo Lobo encarnado em Alan Moore. Marshal Law é um herói que caça heróis numa San Franciso reduzida a escombros depois de um terremoto colossal. Há super-heróis decadentes para todos os gostos: membros de gangues, psicopatas, estupradores, viciados em drogas, etc. Todos refugos de uma guerra que, assim como o Vietnã, terminou em "empate" e confusão moral e ética na cabecinha dos norte-americanos. Mas o governo reage criando o Espírito Público, um super-herói a imagem e semelhança do Super-Homem, milimetricamente moldado para ser a antítese de Law e a "verdadeira face da América". Não é preciso dizer que Law o caçará, e o fará por considerá-lo culpado pela decadência vigente, já que o tal Espírito Público passou 25 anos no espaço enquanto as coisas aqui embaixo iam de vento em popa para o caos. Isto acaba por tornar o conflito ainda mais interessante e complexo - e é curioso perceber que Kurt Busiek diz quase a mesma coisa na épica e posterior Reino do Amanhã, um futuro alternativo do Apocalipse bíblico em que o Super-Homem retorna de seu auto-exílio.
Mas, para finalizar, a verdadeira razão deste post excessivamente fanboy é que eu vi a ilustração aí ao lado da capa do livro de Arthur Clarke, Prelude to Space, e me lembrei imediatamente da namorada de Joe Gilmore, a "identidade secreta" de Marshal Law, uma espécie de socióloga, Lynn. Lynn desenvolvia sua teoria para um livro no qual descreveria as maquinações eróticas por trás dos super-heróis, em especial na simbologia fálica dos mesmos. E tome herói montado em míssil, parando trens e voando ao alto de prédios gigantescos - freudismo de botequim dos bons. Aliás, Freud diria que Lynn sofre mesmo é de inveja do pênis, mas isto já é outra história...
A propósito: se puder, leia Marshal Law publicada no Brasil pela Abril, que corresponde a minissérie Fear and Loathing - os malucos Mills e O´Neil publicaram outras coisas com o personagem, algumas ainda mais bizarras, mas estas jamais deram as caras aqui na terrinha...

21 de junho de 2004

O mal da internet é o link
Falo sério. Quando inventaram este tal hipertexto, Tim Benners-Lee, antecessores e herdeiros intelectuais não sabiam o risco a que estariam expondo muitos de nós - eu, inclusive. Quantas vezes fui fazer uma pesquisa no onipresente Google e o resultado acabou me interessando a ponto de começar a ler algo que nada tinha a ver com o objetivo inicial? Pois bem, aconteceu de novo. Queria ler as opiniões de quem usa a nova versão do Java, a 1.5, codinome Tiger, e foi exatamente o que digitei.
Para minha surpresa, dois ou três blogs depois, me deparo com um link para o Sierra Safari Zoo com informações sobre Hobbs, um raro liger, cruzamento entre leão e tigre. O bicho é descomunal, pesado e dá medo só de pensar numa criatura destas aparecendo na sua frente - e não venha me dizer que o leão é manso, porque esta besta só foi criada por pessoas como um gato selvagem de luxo, ninguém sabe como seria um grandalhão destes no ambiente natural...
Pronto, lá fui eu atrás de outros sites. Descobri ainda Sansan e Sudan, dois ligers irmãos, e fiquei sabendo que as fêmeas nascidas desta bizarra união não são esteréis, ao contrário dos machos. E ainda caí na página de um maluco que defende a criação de ligers como substitutos aos extintos leões de montanhas na América do Norte. Aqui (não, não é o Nicholas Cage...), aqui e aqui tem mais fotos do bichão.
A quem interessar possa, claro.

16 de junho de 2004

Putz!
15 dias sem postar aqui! Mais um pouco e este blog morre de inanição.

1 de junho de 2004

A perenidade do Febeapá!
Stanislau Ponte Preta, vulgo Sérgio Porto, merece sempre ser lembrado. Para quem, como eu, nem era nascido, saiba que é dele o Febeapá (Festival de Besteiras que Assolam o País), compilação de asneiras ditas por quem nos comandava - lembre-se de que estávamos sob os coturnos da ditadura. Porém, basta ler qualquer jornal para provar a si mesmo a atualidade de Sérgio Porto. Afinal, onde houver poder, haverá asneiras a ser ditas, ouvidas e (especialmente) satirizadas.
Memórias Literárias – I
Isso mesmo, agora vocês terão que aturar pequenos drops com as minhas impressões sobre literatura e minha relação (promíscua, diga-se de passagem) pelos livros. Como blog que se preza é um exercício de individualismo intelectualóide, eu não ficaria por fora. Como diz o comercial da Coca-Cola: “esta é a real”. Ou seria “é verdade, é fato”? Bom, um dos dois slogans é do governo e outro do refrigerante; seja lá como for não dá para entender no que querem que acreditemos.
Tive aquela infância de nerd besta; as professoras adoravam as minhas redações – houve até uma que jamais devolveu meu escrito. Foi na oitava série e o tema era destino; fui o único da sala a escrever que o homem constrói seu próprio destino, o resto do pessoal desfiou a ladainha do destino traçado.
(Nota de rodapé no meio do texto: Isto só demonstra como eu deixo de ganhar dinheiro. Uma narrativa destas seria perfeita para a introdução do relato de um empreendedor de sucesso, abriria para mim as portas das lucrativas palestras de auto-ajuda corporativa, eu teria uma coluna ao lado do Max Gehringer na Você S.A. Nada disso, esta observação acaba num blog pouco acessado da web. Eta vida besta, meu Deus!).
Mas foi graças a uma professora do primeiro grau que acabei desembestando de vez para a escrita: depois de escrever uma redação chata numa aula igualmente chata, decidi escrever para mim mesmo um pequeno conto. Ainda tenho este exercício pueril comigo, guardado em algum lugar que não me lembro mais. Mas foi divertido, uma fantasia sobre um mané que passa sem perceber e sem querer de um tempo a outro – isso mesmo, uma versão trash de algum episódio da série Além da Imaginação, incluindo-se aí o final trágico. Daí para a frente, escrevi mais de uma dezena de contos B de fantasia e ficção científica. Ei, antes que você pare de ler isto, saiba que Guimarães Rosa também começou com contos de realismo fantástico. Mas, ao contrário de mim, se desenvolveu e, bom, se transformou no autor de Grande Sertão: Veredas.
Este artigo precioso de Bráulio Tavares, A Pulp Fiction de Guimarães Rosa, mostra como os primeiros contos publicados por Rosa eram influenciados por este gênero.

31 de maio de 2004

Alô criançada, o Bozo se estrepou!!!
Pois, é minha infância está ligada também a este palhaço esquisitão, de cabelo de bombril armado e roupa azul. Ao contrário de muita gente por aí, não tenho trauma nenhum quanto a figura dos palhaços; assistia ao programa bozolino com prazer. Fui de uma geração de transição, entre o palhaço azul e a palhaça da Xuxa, não faço parte da turma descrita pelo site Rocker Magazine como "a geração pós-Bozo que cresceu vendo e ouvindo o monstro Xuxa, [...]". Não é por menos que dizem que João Gordo, ex-rato-de-porão e atual VJ da MTV, fica nervoso e chateado se falam mal do palhaço Bozo perto dele, embora o gordinho não tenha tido pudor algum ao perguntar para o próprio se ele cheirava cocaína antes de apresentar seu programa infantil. Ainda na MTV, o programa Hermes e Renato tem o quadro do palhaço Gozo, em que todas as brincadeiras, como é fácil se supor, giram em torno de sexo - com aquela elegância e sutileza típicas da trupe. Ou seja, é mesmo a referência trash-infantil de uma geração.
Agora chegam notícias da bozolândia dizendo que Bozo não era o Bozo! Larry Harmon, apresentador e produtor que sempre afirmou ser o primeiro Bozo da história, teve sua história contestada pelo Hall da Fama de Palhaços Internacional, com sede em Milwauke, EUA - pára de rir que isto não é piada; o instituto existe mesmo! Aparentemente descobriram que o clown foi uma invenção do executivo da Capitol Records, Alan Livingston, em meados dos anos 40. O primeiro a personificar o personagem foi Vance Pinto Colvig (não escrevi errado, é Pinto mesmo), em gravações de LPs.
Isso mesmo, meus leitores, mais um símbolo de nossa infância que se vai... Os alicerces conceituais da minha infância passaram por sérios abalos sísmicos, mas resistirão a derrocada de Bozo, tenho certeza. Perserverarei (tente dizer isso em voz alta, sozinho, no escritório, com seus colegas olhando para você; depois escreva para mim contando a experiência).

28 de maio de 2004

Eu tenho que ver este filme!
Donnie Darko! - e, pelamordeDeus, não o confunda com Donnie Brasco...

27 de maio de 2004

E a mãe, quanto custa?
Uma lasca da cruz na qual Jesus foi crucificado está a venda no Arremate.com! Peça imperdível, raríssima, conservada numa caixa de altíssimo nível, esta impressionante relíquia foi adquirida em 1930, em Jerusalém.
Logo estarão disponíveis também:
* Um fio de pêlo da ovelha fêmea que Noé levou na Arca;
* Uma lasca da pedra que Davi tacou na cabeça de Golias;
* A última folha da árvore boddhi, embaixo da qual Buda atingiu a iluminação;
* Um pedaço das Tábuas da Lei que ficou de fora da Arca da Aliança, onde ainda se lê: "Não...";
* Um tijolo das muralhas de Tróia (brinde grátis: um pedaço da madeira do cavalo!);
* O nariz empalhado da rena Rudolph, pioneira no transporte de Papai Noel;
* A pata do coelho da Páscoa;
* A pedra fundamental da Muralha da China;
* A cueca de Genghis Khan.
Em breve, num site de leilões perto de você!
Outro blog?
Isso mesmo, tenho outro blog, O Homem Que Não Falava Javanês, no serviço Javablogs, invenção das prolíficas cabeças que habitam o GUJ - Grupo de Usuários Java. Aos navegantes que não sabem, sou programador (aspirante a analista de sistemas) e começo a trabalhar com a linguagem Java com firmeza agora.
Mas vale o aviso: O Homem Que Não Falava Javanês trará posts sobre tecnologia e informática, em sua maioria. É o lado nerd do Anacrônico que aflora na web (argh, que frase brega). Por isso, ao acessar, saiba da encenca na qual está se metendo.

25 de maio de 2004

Eu vou estar participando desta campanha!
Sim, e você também pode estar participando. Basta estar copiando o endereço da figura abaixo, cortesia que está sendo disponibilizada pelo site Mundo Perfeito. Com sua ajuda, vamos estar banindo esta praga da língua portuguesa brasileira atual, o gerúndio inútil que já está irritando muita gente por aí.



20 de maio de 2004

Minha Vida sem Mim
A crítica do Pablo Villaça ao filme Minha Vida Sem Mim é tão boa que dá vontade de assistir a ele agora mesmo. Basta ler este trecho:

Scott Speedman, por exemplo, protagoniza uma comovente conversa com a esposa – e poucas declarações de amor poderiam ser tão tocantes quanto a simplicidade com que ele diz: 'Eu gostaria de ser melhor para você'
Nós, os brasileiros que odiamos os ianques...
Quando eu falo que parte da desastrada decisão do governo em enfiar o pé no grande glúteo do jornalista Larry Rohter pode ser creditada a crença de que qualquer medida, por mais absurda que possa parecer a primeira vista, será bem recebida pelos brasileiros pelo fato de ser antiamericana, eu não estou brincando. Vejam-se os absurdos escritos por dois leitores do jornal Estado de Minas, cujas cartas foram publicadas por lá, no dia 17 de maio:

Do leitor Rodrigo França, de Belo Horizonte...
Ao garantir a permanência do bisbilhoteiro jornalista norte-americano no Brasil, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tomou decisão no mínimo polêmica. Imaginemos a recíproca: um jornalista brasileiro registra cenas da Casa Branca, onde o sanguinário George W. Bush planeja seus jogos de guerra.

Já até imagino o Bush com um mundo de plástico pintado no chão, fazendo “vrum-vrum” com os lábios, ajoelhado com Rumsfeld e Powell, todos eles brincando de guerra mundial imperialista. Alguém andou assistindo a Senhor Fantástico demais...

O que faria o “democrático” governo dos EUA?

Daria de ombros. É o que eles fazem com todos os correspondentes estrangeiros de chamam Bush de mentiroso, covarde, burro, megalômano e ex-bêbado, todos os dias.

Melhor nem pensar. A privacidade dos homens públicos não pode ser violada por pessoas inescrupulosas.

Isso mesmo. Os homens públicos devem agora criar um cadastro de pessoas confiáveis. Aqueles que não puxarem o saco deles passam automaticamente para a categoria de destestáveis inescrupulosos.

Yankees go home!

Vão mesmo, podem ir. Perderão o país do samba, da malemolência, do tesão, da baixa escolaridade e do crescimento pífio.

Do leitor Mauro Alvim, também de Belo Horizonte...
Que direito tem um jornalista estrangeiro de enviar reportagem caluniosa envolvendo o nosso presidente para um órgão da mídia norte-americana?

Já ouviu falar de liberdade de expressão? Qualquer um tem o direito de dizer a asneira que quiser (diga-se de passagem que a tal matéria era muito ruim mesmo) e arcar com as conseqüências disso. Se você acha que a coisa tem que ser diferente, dê uma olhada nos países “desenvolvidos” que controlam todas as notícias que saem de lá: Cuba, Coréia do Norte, Turcomenistão, China (nem me falem que é uma potência econômica, já parou para pensar no que eles fazem, moralmente por lá?).

Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tivesse posado com um copo de uísque escocês a história seria diferente?

Seria. Os escoceses o teriam chamado para fazer comercial do Johnny Walker. Keep walking, mr. Lula. Claro, ele recusaria.

A meu ver, o presidente precisa dizer um basta a provocações deste tipo.

Isso mesmo! Daqui para frente, jornalista bom é só jornalista a favor. O resto não é confiável. Vai perder a carteirinha para circular no Congresso, não terá direito a meia entrada no cinema e se for um migrante nordestino morando em Sampa, será devolvido a Paraíba no pau-de-arara para aprender a deixar de ser bobo!

Até quando estaremos de cabeça baixa diante dos ianques que vivem se embriagando com o sangue de inocentes iraquianos e outros países, que estão “invadindo” a nossa Amazônia com “missionários” e ONGs com atitude suspeita?

Hã... Os soldados americanos, além de torturadores, agora viraram vampiros também? Pelo que sei, a maioria das ONGs que invade a Amazônia é européia...

Bem faz o nosso presidente com o “fora” para o jornalista calunioso.

Fez tanto bem que a Justiça disse que legalmente não podia. Ou o presidente não entende de leis ou entende e assumiu a “responsabilidade” de tomar uma medida autoritária. Em ambos os casos, está errado. E, se está errado, não fez bem mesmo.

18 de maio de 2004

O que queremos ser é... "Malandro Burro Feliz Com Dinheiro"
Navegando a esmo pela blogosfera brasileira, me deparei com o blog Something Stupid, do Chico e com esta pérola da síntese da alma nacional. Eu jamais teria escrito melhor. Cito abaixo alguns trechos (você tem que ler a coisa toda no blog dele):

Mas eu falaria sobre o tipo ideal do brasileiro. O Malandro Burro Feliz Com Dinheiro. É o que mais se quer ser. Não se trata de aceitação de uma determinada condição psico-social. Não, se trata de desejo mesmo, de busca, de Sentido da Vida. O brasileiro típico quer ser malandro burro feliz com dinheiro.

Na verdade, o burro feliz é o mais fácil de ser e se encontrar por aí. É o modelo básico, digamos assim, sem os acessórios. Para ser burro, ele não precisa de nenhum esforço. A "felicidade" também pode ser comprada baratinha, mas não depende só de dinheiro. O burro feliz típico é aquele que quer a cervejinha do fim de semana, uma mulher em casa, a possibilidade de traía-la vez em quando e salário no fim do mês.

E é a aceitação dessa burrice como "conquista" da "inteligência" e caminho necessário para a felicidade a única "contribuição" brasileira para o mundo. Desculpem as aspas em excesso, mas brasileiro já é um ser humano entre aspas, portanto...

E se tiver dinheiro, a felicidade na Terra está completa. O malandro burro feliz com dinheiro é o auge que todo brasileiro almeja alcançar. Taí o Big Brother que não me deixa mentir.


Agora entendi o que tanto me incomoda nos comerciais de cerveja - todos eles, mas em especial os da Schincariol, que estão entre as peças publicitárias mais idiotas da história. Nada contra a cerveja, claro. Na verdade, prefiro um vinho a ela. Bom, na verdade mesmo, não gosto de cerveja. É isso mesmo, pode bater, pode mandar e-mail me xingando, eu não gosto de cerveja!!! Pronto, falei, vai encarar?
Pois bem, o fato é que as tais propagandas resumem a celebração deste modelo "Malandro Burro Feliz" (com dinheiro, nem sempre...). Em geral, seus personagens são uns manés de uns 26 a 30 e poucos anos, que contrastam com a beleza das modelos em ambientes de descontração depois da chatíssima semana de trabalho. Veja o último da Skol. O imbecil pergunta se a esposa vai continuar gostosa depois do casamento, porque a Skol, afinal de contas, tem lá suas décadas de vida e continua gostosona (para quem gosta). Desfeito o casamento, vemos o cara e um amigo num bar, onde o primeiro resume tudo: "Falou pouco, mas falou bonito" - típica frase de amigo bêbado mesmo.
A negação da realidade (não, meu amigo, sua esposa não será gostosa para sempre, e você, ó guardião da estética feminina, ficará careca, barrigudo, enrugado e mais chato do que é hoje) é um traço inegável do brasileiro. Estamos sempre a inventar desculpas, teorias acadêmicas e "intelectuais" de quinta categoria só para provar que nosso atraso é superior ao desenvolvimento dos outros. Junte-se a isso a absoluta falta de ambições pessoais, profissionais, espirituais, intelectuais, etc., etc., que a maioria do povo (seja lá de que "classe social" for) carrega como valor positivo e temos a receita pronta a desandar. E já desandou faz tempo - nós é que não percebemos ainda...
E aí, galega, concordagam comigo?

14 de maio de 2004

Vai uma vaga aí, moço?
Notícia publicada no IG Notícias: Reserva de vagas nas universidades públicas é bem recebida no Senado. Não se preocupe, não vou torrar a paciência de ninguém com mais uma lista de razões e argumentos sobre reservas de vagas (ou não). O que chamou a minha atenção no artigo foi a justificativa (ou senso de realidade, diriam alguns) dos autores da proposta. O senador Antero Paes de Barros, autor de outro projeto, não aprovado no falecido governo FHC, resumiu suas razões para a reserva de vagas para alunos da rede estatal assim: "[...]isso é bom, porque a classe média vai para a escola pública e vai exigir mais qualidade. No Brasil, pobre não tem voz, só a classe média"
Muito bem! Pobre não tem voz e os senhores políticos, eleitos por milhões de pobres em todo o país, perderam a vergonha de vez e agora afirmam isso com todas as letras. Que bom que a classe média (que pode pagar pelo ensino privado, diga-se de passagem) vai migrar para o ensino estatal porque ela tem voz ativa e vai exigir melhoria no ensino. Puxa, isto deve compensar as vagas que os garotos de classe mádia vão tirar da galera que não pode pagar pelo ensino privado, não é mesmo? Agora, vem cá, me explica outra coisa: se não há verba neste governo nem para os programas sociais dele, de onde é que as reinvindicações da classe vão encontrar eco e resposta? Ou os senhores estão sonhando em ver pais de classe média "ajudando" a manter as escolas estatais? Porque, se for por isso, façam o favor de acabar com a "gratuidade" do ensino estatal de uma vez, ao invés de se esconder por trás de subterfúgios como este.
Ou seja, as universidades estatais continuarão a ser "reduto" preferencial da classe média - nada mudou. A diferença é que agora pobre se estrepou de vez; se já não entrava mesmo nas universidades estatais (ou se matava de trabalhar para fazer curso noturno nas faculdades privadas, como eu fiz), nem educação básica vai conseguir mais. Agora eu entendi a proposta amalucada de se criar reserva para os negros, deve ser uma forma de se compensar o desmanche que esta nova medida trará.
Em resumo: ao invés de investir na educação básica, na boa formação dos alunos no ensino estatal (não importando suas origens), na preparação de todos para a disputa pelas universidades, vamos fazendo estes remendos aqui e ali, acreditando que caminhamos para o maravilhoso posto de líder dos países em desenvolvimento (leia-se "o menos pobre dos miseráveis").
Quando outro exame, como o Pisa, demonstrar, novamente, a absoluta estupidez dos alunos brasileiros, onde os senhores que pregam este "novo modelo" vão enfiar suas cabeças? Porque avestruz só existe na África e este negócio de enfiar o cocoruto na areia é um mito de desenho animado. Se é que os senhores não faltaram às aulas de Biologia.

12 de maio de 2004

Para encerrar o assunto de ontem...
Tem muita gente por aí dizendo que não há nada de mais na atitude do governo em chutar o jornalista do New York Times que escreveu o artigo (aliás, um péssimo artigo, incrivelmente mal redigido). Pois eu digo que há, sim, e que esta foi uma medida desastrada e inútil. Nos EUA de George W. Bush, o presidente é chamado de idiota, covarde e mentiroso dia após dia por jornalistas muito melhores do que este tal Larry Rohter. Por Deus, o que importa aos interesses nacionais, a segurança, soberania, sei lá o que mais, se um sujeito resolveu escrever que o presidente brasileiro talvez esteja se excedendo na bebida? E vejam que o colunista da Veja e polemista Diogo Mainardi escreveu a mesmíssima coisa (com tons próprios de ironia) meses atrás e não se mexeu uma palha contra ele. Então a expulsão de Larry Rohter trata-se de uma medida populista contra o "gigante do Norte"?
Destaco a seguir alguns trechos de artigos da revista Primeira Leitura sobre o caso. Você pode lê-los na íntegra aqui e aqui.

A nota que faltava, infelizmente, sai da pena do embaixador Roberto Abdenur. Em nome do Brasil, vejam lá — do meu e do seu também, leitor —, o diplomata sugere haver uma conspiração nos EUA contra o Brasil. Mergulhamos fundo no ridículo desta vez.

O governo Lula dispõe de uma secretaria de Comunicação e de um porta-voz. O Planalto está coalhado de jornalistas. A estes, sim, caberia, se se julgasse adequado, responder nem a um jornal americano, mas apenas a uma reportagem nele contida. De um representante do Estado brasileiro no Exterior cobra-se mais do que bater boca com jornalistas por causa de informações que, de resto, estão longe de pôr em risco os interesses nacionais.

O entendimento mais profundo do petismo sobre o que é uma democracia mostra a face, esta que vinha sendo mitigada pelos óbvios desastres de Lula. É triste dizer, mas é fato: fosse este governo um sucesso de público e de crítica, trilharia um caminho autoritário qualquer. De fato, nas franjas, o partido ensaia a sua vocação — desastrada, diga-se — para ser o Moderno Príncipe, como aqui muitas vezes se alertou. Felizmente, é incompetente demais para isso. Expulsão de estrangeiro do país porque o punido desagrada ao governo remete imediatamente ao padre italiano Vito Miracapillo, deportado do país em outubro de 1980, durante a moribunda ditadura do general Figueiredo.

Não há dúvida: 24 anos depois, os responsáveis pela decisão de expulsar o correspondente Larry Rohter são, claro!, Lula, Thomaz Bastos e o governo como um todo. Coonestam a decisão e por ela respondem solidariamente todos aqueles que — jornalistas sobretudo — buscaram no texto de Rohter algo além do que ali estava: uma reportagem irrelevante. Essa gente não quer democracia; quer é ditadura. Como aquela que expulsou Miracapillo. E também — é bom que fique claro — figuras de oposição se comportaram mal no episódio.

E durma-se com um barulho destes.
A maior asneira da história deste país de quinta categoria
Atenção, meus caros leitores: está, desde agora, revogada a liberdade de expressão no Brasil. Aberto o precedente da expulsão do jornalista do New York Times que escreveu um artigo sobre os hábitos alcóolicos do nosso presidente, qualquer um que tenha a petulância de insinuar qualquer coisa contra o Planalto e seus ocupantes está sujeito a expulsão, processo, prisão. Portanto, este blog passará a se comportar como um legítimo sabujo do poder, coisa lucrativa e simples que nossa mídia aprendeu há muito tempo como se faz.
Por isso, não apoiamos mais a ONG Repórteres sem Fronteiras, que colocou o país ao lado de ditaduras como Cuba, Turcomenistão, Coréia do Norte, Venezuela. Organização, aliás, que chiou quando o Brasil, este gigante de genialidade e independência diplomática, não reclamou quando Fidel resolveu passar fogo nuns dissidentes que tiveram a audácia de fugir daquela ilha da fantasia.
Por outro lado, apoiamos integralmente a teoria do embaixador Roberto Abdenur, para quem há uma conspiração contra o Brasil arquitetada por mentes diabólicas que habitam a Casa Branca.
Qualquer repórter que ousar duvidar da mais absoluta integridade de qualquer político do governo se coloca, automaticamente, como um desordeiro, um baderneiro que merece a exemplar punição que o eficiente estado brasileiro há de lhe imputar.
Quem não percebeu que este é um texto satírico, eis a prova. Se a democracia brasileira não dá mostras de tolerar a expressão de um jornalista, seja brasileiro ou dos EUA, então a rota preferida pelos ocupantes dos mais altos cargos é, no mínimo, preocupante. Expulsar jornalista porque ele escreveu um textinho que desagradou ao alto clero é uma estupidez que nem os militares fizeram. Com esta, o governo Lula se alinha aos mais patéticos ditadores de bananas e areia, jogando por terra seu suposto esforço diplomático, e humilhando a todos nós perante o mundo. Quem aí tem orgulho de ser brasileiro depois desta?.

11 de maio de 2004

Ié!
Podem me xingar de puxa-saco, mas esta nova interface do Blogger é ótima!
Ah, estes adoráveis idiotas...
Este artigo do UniversoHQ presta uma justa homenagem a alguns dos personagens mais idiotas e queridos de todos os tempos. Vale a espiada.

9 de maio de 2004

Por falar em Walter Salles...
Li que seu próximo projeto é a refilmagem norte-americana de um terror japonês, Dark Water. Assisti este filme alguns meses atrás. Não é tão bom assim, mas é bem realizado e cuidadosamente claustrofóbico, brincando com a questão da solidão urbana num edíficio assombrado por uma tragédia do passado. Os planos são estáticos, um tanto longos e melancólicos. Quando o terror surge, não faz feio, mas o final é telegrafado muito antes da conclusão.
A pergunta inevitável: O que Salles viu neste filme? Talvez a oportunidade de tentar um mercado ainda inexplorado para ele - o norte-americano/internacional/cinemão. Fernando Meirelles está lá, filmando The Constant Gardener, que conta com Ralph Fieness no elenco. Aliás, o diário da produção é publicado no excelente Cinema em Cena.
Che e os Diários de Motocicleta
O que dizer de Diários de Motocicleta, de Walter Salles? Ninguém duvida do gigantesco talento do nosso cineasta mais internacional, do qual ele já deu mostras em mais de um longa. Mas, por que, a esta altura do campeonato, reviver a figura de Che Guevara? A resposta mais simples que consigo imaginar é: ele é um ótimo personagem. Antes de continuar a leitura, já aviso que não simpatizo nem um pouco com Che ou as idéias que ele defendeu, muito menos com as suas ações. Dito isto, prossigamos.
A armadilha que Walter (os jornalistas costumam chamá-lo de Waltinho... detesto apelidos, especialmente aqueles que me dão uma falsa intimidade com alguém que mal conheço) evita, com inteligência e elegância, é tentar explicitar o momento em que surge Che, o revolucionário, a partir de sua viagem pela América Latina. Até porque ele não tem esta resposta. Entretanto, esta armadilha esconde outra, bem mais espinhosa. Porque quando Che emerge, ele acaba por abandonar aquele povo que descobriu na travessia, colocando a ideologia acima deles, comandando assassinatos e liderando pessoalmente o massacre dos "inimigos políticos" no famoso e mitológico parédon. Mesmo a beleza do filme, o apuro estético de Walter não serão capazes de desfazer este nó.
A intenção explícita do roteirista e diretor é a de humanizar o mito, devolvê-lo ao convívio diário, torná-lo palpável - portanto, a escolha da viagem de Che e Granado não poderia ser mais óbvia. Tentando se distanciar da ideologia, o filme deseja ser para a América Latina o que Central do Brasil foi para o nosso país, ou melhor, para o público brasileiro: um convite visual a descobrir uma terra distante da maioria de nós. Diários de Motocicleta demonstra a ambuigüidade de nossa terra, uma ilha de descendência portuguesa cercada por um conjunto de países de línguas e tradições tão diferentes que é como se estivéssemos visitando outro planeta. Exceto nos nossos problemas, misérias e na capacidade algo “messiânica” de se acreditar em homens como Che. Infelizmente, é impossível demover Che de sua condição de mito; sua imagem já foi diluída até pela cultura pop, com a foto de Alberto Koda estampada em camisetas e bonés de qualquer rebeldezinho de cara espinhuda ao redor do mundo. Também infelizmente, este mito reacende a crença em outro, ainda mais complexo e, digamos, perigoso: o da revolução como resposta aos gigantescos problemas das sociedades. A curto, médio ou longo prazo, toda revolução vem cobrar seu preço, porque demonstra ser apenas um instrumento de tomada do poder por um grupinho de sujeitos travestidos de representantes das massas. Não foi diferente com Che, que se deixou apaixonar não mais pela humanidade, mas pela idéia da revolução em si mesma. Vira burocrata em Cuba, comanda execuções, escreve um cruel livro-guia para guerrilheiros, vai a África “fomentar mil Vietnãs”, volta a América do Sul, derrotado, e acaba preso e executado.
Sem dúvida um personagem rico, mas certamente não o “homem mais completo do século XX”, como o definira, fazendo o papel de baba-ovo filosófico, Jean-Paul Sartre.
Aliás, se serve de contraponto, vale a leitura de O Homem Revoltado, de Albert Camus. Até a publicação deste livro, ele e Sartre eram amigos, mas diante do silêncio e apoio de Sartre às atrocidades stalinistas, Camus mete o dedão na ferida e tornam-se inimigos ferrenhos.
Mas não se deixe enganar nem pela ideologia ou por este post: assista a Diários de Motocicleta e redescubra uma América Latina que nosso isolamento condenou a distância. E pense muito bem antes de assinar embaixo de qualquer um que diz saber como conduzir os povos a “libertação”. Isto vale para Che também.

7 de maio de 2004

Eles não entenderam nada...
Kill Bill, o novo petardo de Tarantino, parece-me, terá vida curta nos cinemas brazucas. Mesmo em Sampa, dizem-me alguns amigos, deve sair logo de cartaz. Aqui em Beagá a reação não foi exatamente positiva. Ninguém entendeu a ironia e as citações a cultura pop mais descerebrada e divertida que os anos 60, 70 e 80 produziram, concentrando suas críticas e observações na violência do filme. Comecemos pelo editor João Paulo, que, no Estado de Minas, se perguntou o que aconteceria se Tarantino tivesse se dedicado a ler e ver coisas melhores quando era adolescente; segundo ele, estaria criando filmes muito melhores. É gente assim que vive dizendo que devemos valorizar os elementos da cultura popular, mas se esquiva quando vê cultura popular criada fora dos limites estreitos do Brasil e de suas concepções de sociologia. Ora, admitemos que, de uma forma ou outra, o cinema e a TV são indústrias de cultura de massa, portanto, popular. Uma vez vez aceito isto, o que há de errado num filme que brinca com estes elementos? Há em Kill Bill referências aos filmes de artes marciais do anos 70, aos animes (desenhos animados japoneses), e, claro, àquele jeitão meio pulp, deliciosamente trash e irreal que há no universo tarantinesco. Isso mesmo: irreal. O próprio Tarantino disse que tudo que escreve aprendeu não nas ruas (eu morro de rir quando leio isso; ele era um nerd atendente de vídeolocadora e consumidor voraz dos filmes de pancadaria de Sonny Chiba), mas nos cinemas. Ainda admite que seu primeiro filme, Cães de Aluguel (Reservoir Dogs) é inspirado num obscuro filme policial de Hong Kong.
Quem se impressiona com a acidez de seus personagens, que discutem sobre sanduíches antes de mandar para o céu um bando de moleques que tentou passar a perna no chefão local, aqueles que se aterrorizam com o sangue que jorra dos pedaços de japoneses que caem ao chão depois de devidamente fatiados pela Noiva, é porque não entendeu a piada. Mais uma vez, os comentários revelam mais sobre quem os diz do que sobre o filme. No mesmo Estado de Minas, numa reportagem pífia sobre a violência no cinema (aliás, o outro filme citado era A Paixão), uma psicóloga deu sua contribuição pessoal ao equívoco. Segundo ela, "colocaram uma branca para dar cabo de uma negra e uma japonesa, globalizaram a violência". Santo Deus! Agora Tarantino é porta-voz de uma suposta ultradireita histérica norte-americana que enfia mensagens subliminares da dominação dos branquelos do lado de cima nos filmes! Esta senhora passou dos limites do bom senso.
Mas, convenhamos que ela apenas aplicou ao que viu seus conceitos, interpretou de acordo com o filtro que tinha e a ignorância absoluta sobre o obejto analisado. Afinal, ela admite que foi ao cinema ("não saio de casa para ver um filme violento destes") apenas porque o marido leu e gostou da sinopse. Vejamos. O filme chama-se Kill Bill e a sinopse informa que uma mulher "quase assassinada" pelo marido às vésperas do casamento, volta do coma anos depois para se vingar. Ora, o que a senhora esperava encontrar? Uma adaptação de obra de Jane Austen? Um filme do Spielberg?
E é melhor eu ir logo assistir, antes que os mineiros corram com este filme dos cinemas. Como se não bastasse o atraso da distribuidora Lumiére (sete meses!!!!)...

6 de maio de 2004

Pé na jaca, na lama, nos quintos dos infernos
Se eu não fosse este rapaz educado que todos conhecem, não hesitaria em escrever um belo de um "Fodeu!" no título deste post. Como sou este sujeito ajuizado e meio bundão que vocês conhecem, arquivo o "Fodeu!" e fico com um mero "pé na jaca". O assunto, claro, são as estripulias dos soldados norte-americanos no Iraque. Não bastasse a competência do governo Bush ser questionada, a eficiência da ocupação e o suposto sumiço das armas de destruição em massa (que, diga-se de passagem, existem; ou será que Saddam Hussein exterminou os curdos a base de paus e pedras?), agora desce-se aos portões do inferno, definitivamente.
Era de se esperar que os atentados terroristas de 11/9 levassem os EUA a uma série de medidas que restringissem o ir e vi dos cidadãos e sua privacidade, jogando por terra boa parte da ideologia que faz com que o país seja admirado e/ou odiado. Mas talvez nem os terroristas imaginavam que conseguiriam ir tão longe no convite que fizeram às chamadas democracias ocidentais: "vem cá nos encarar, babacas! Mas para nos derrotar vai ter que usar de terror também, mané!". E não é que os idiotas foram? Agora que se vêem num lamaçal sem perspectivas de resgate a curto prazo, Bush e cia. se desculpam de olhos nas ?eleições, promovem uma suposta devassa a procura dos soldados que cometeram os crimes. É de se perguntar se esta prática é a regra ou a exceção; ou, pior, nem uma coisa nem outra, mas uma atividade (explico: tortura, humilhação, sevícias sexuais...) medianamente popular e tolerada pelos oficiais.
A triste história das vitórias bélicas e das ocupações não deixa margens para otimismos. Os aliados bombardearam inutilmente a população civil berlinense com uma fúria que destoava do "nobre ideal" de derrotar Hitler e seus asseclas. Neste momento, igualaram-se, desprezando aqueles a quem juraram proteger. No final, é claro que Hitler teve o fim que merecia, mas as máculas do conflito são quase-segredos que poucos ousam mencionar abertamente. Da mesma forma, a imagem de uma União Soviética triunfante, tomando o outro lado de Berlim para si é de uma falsidade aterradora - sabe-se hoje que praticamente toda a população feminina sobrevivente foi estuprada por soldados russos bêbados; muitas até a morte, por dezenas de homens. Como diz o ditado, de 8 a 80 anos, todas foram vítimas da mesma fúria.
Por que acreditar que seria diferente no Iraque? E agora, como os conservadores e alguns liberais vão sustentar a teoria da ocupação relativamente tranqüila do país, com conflitos isolados (porém ferozes) e uma população recém-conquistada pelos norte-americanos? Como dizer a outros povos árabes, a duras penas parcialmente convencidos pelos homens de Washington nos últimos 30 anos, de que os homens do lado de cá não são tão ruins quanto parecem?
É um atoleiro do qual nem a eleição poderá tirar os EUA. Não se trata apenas do governo Bush, mas de uma situação insustentável e sem solução - a não ser com o abandono do país ocupado a sua própria sorte.
Durma-se num atoleiro destes.

5 de maio de 2004

Eu perdi minha crença na humanidade...
Sério. Estou com minhas esperanças no homem profundamente abaladas depois de ler este post. O sujeito compartilha arquivos pela internet, usando um programa peer-to-peer (P2P, para os íntimos) chamado Limewire. Apenas por brincadeira, ele resolveu trocar o nome de um dos vídeos, uma apresentação do Led Zeppelin, para "Hot Lesbian Sex". Estarrecido, viu o ponteiro dos downloads superar rapidamente os 50 pervetidos atrás de duas mulheres, digamos, animadas. Então... Tom (o dono do blog) resolver renomear os arquivos para nomes ainda mais bizarros. Leia o resultado aqui.
Ah, se você não souber o que é um emu, clique aqui para ver uma foto dele.

Eita!
Um dos sites e comunidades que mais visito, a Central de Quadrinhos, está fora do ar faz um bom tempo. Pois bem, acabo de acessar novamente o endereço e me deparei com o anúncio do editor, Paulo César Arashiro. Por falta de um mísero backup do site (coisa obrigatória e que consta do contrato de hospedagem), muita coisa - repito: muita coisa mesmo! - foi perdida. Esperamos que isto que se resolva logo e desejo boa sorte ao pessoal da Central.
Mais do mesmo: não é a primeira vez que vejo isto acontecer. Serviços de hospedagem de sites sem política de backup, dados perdidos e usuários irritados. Não é à toa que, quase 10 anos depois do primeiro boom da web, todo mundo a olha com um misto de admiração, medo e ceticismo.
Só uma pergunta: dói ser competente, pelamordeDeus?

4 de maio de 2004

Animação suspensa
Vida suspensa por mais de duas semanas, ajudando um familiar próximo a lutar contra depressão. Doença estranha e próxima, esta. Se fosse falar dela, sairia um balaio de clichês. Evito-os com apenas estas frases.

16 de abril de 2004

Boicote a Nova Iguaçu!!!!!!!!!!!



Não, os cartazes acima não são nenhuma brincadeira de mau gosto que veio cair no meu e-mail. O prefeito de Nova Iguaçu, sr. Celso Sâmis da Silva, do PMDB, resolveu divulgar sua cidade assim: pegando carona na suposta passagem do terrorista Bin Laden pelas redondezas. Uma coisa é criar humor a partir do facínora, transformando-o numa figura ridícula e verdadeiramente cômica, como o fazem o pessoal do Casseta & Planeta e o Charges.com.br. Outra é fazer uso da imagem de um terrorista para promover o turismo em uma região qualquer.
Nova Iguaçu é um lugar belíssimo, garantem-me. Obrigado. Graças a estupidez dos criadores desta propaganda, não a visitarei mais. Gostaria de ver esta campanha dando com os burros n´água (de preferência, longe das cataratas) e os responsáveis tendo de voltar atrás.
Mesmo sozinho (minto: a Primeira Leitura está comigo), proponho desde já o boicote a Nova Iguaçu.

15 de abril de 2004

Foto

Só para combinar com a foto aí de cima...
Mulheres...
Para quebrar o clima dos últimos posts, falemos de algo bem mais interessante. Uma amiga estava comentando sobre a conversa que ela e as amigas tiveram quando estavam no cabelereiro (não me pergunte como eu caio nuns papos destes, por favor, você sabe, eu sei, que estas coisas acontecem antes que você possa reagir; quando percebe, bau-bau!) e seus "musos" da TV. Então, a danada me lasca a pergunta: Marcelo, que mulher você acha bonita? Assim, na lata, de cara, fico com dois nomes: Maria Fernanda Cândido e Ana Paula Arósio. Pronto.
Maria Fernanda Cândido nem todo mundo lembra apenas graças ao nome. Eu mesmo sei que a vi em alguns capítulos de uma destas novelas sobre italianos escrita pelo Benedito Ruy Barbosa e (muito bem) dirigida pelo Luiz Fernando de Carvalho. Uma mistura de impulsividade e delicadeza com os lábios e os olhos da Sofia Loren. E ainda freqüenta um grupo de bem apessoados senhores e senhoras que discutem... filosofia! Precisa de mais?
Tenho deixado meu telefone fora do gancho a noite, mas nada da Ana Paula Arósio aparecer vestida de gênio para me recomendar o 21. Rapaz, agora que fui me lembrar de que tenho um caderno de algum curso que fiz anos atrás com ela na capa. Vou até conferir depois para ter certeza. Uma beleza algo clássica, algo moderninha, mas sem parecer uma destas modelos anoréxicas da moda.
Há algo em comum nas duas - são, a sua maneira, mulheres que cativam pelo sorriso. Sim, é isso mesmo - um sorriso é algo capaz de conquistar muita gente. Eu, inclusive. Poderia aqui falar de outros atributos, mas vejam bem, aqui falo de uma certa sedução, e isto nada tem a ver com dotes físicos. A sedução de verdade ocorre em gestos, os mínimos possíveis. E a gente pode levar uma vida inteira até descobrir isto.
A propósito; não, não tenho musas. É uma idéia bonitinha, mas romântica demais para quem pretende levar literatura a sério. Perguntado fui sobre mulheres que considero bonitas, eis a resposta. Depois falo mais do assunto.
Argh!
Putz, dois posts seguidos sobre política, e num mesmo dia? Estou ficando chato!

14 de abril de 2004

Políticos e Políticos...
Diante do meu desinteresse no futuro exercício de cargos públicos - leia-se políticos - expresso depois que um colega me perguntou a este respeito (agradeço a ele por achar que tenho potencial para a coisa; eu tenho lá minhas dúvidas...), posso tranquilamente explicar as minhas razões.
Ao contrário de outras atividades, na política parece não haver lugar para "batedores de ponto". Aquele cara mediano, que quase nunca chega atrasado, realiza seu trabalho bem-feitinho, nunca brigou com o chefe, paga suas continhas em dia, blá-blá-blá, já deu para entender. O mediano, ou a maioria de nós, é uma figurinha quase inexistente no mundo político. A imensa, esmagadora, absoluta, inapelável maioria dos ocupantes dos cargos políticos é, francamente, ruim de serviço. Não, não estou dizendo que são corruptos; estou afirmando, com todas as letras, que pouco têm a oferecer diante da importância dos compromissos por eles assumidos. Estes se tornam políticos por absoluta falta de alternativas pessoais - são ex-artistas, ex-taxistas, ex-frentistas, ex-empresários, ex-qualquer-coisa-na-qual-eles-não-se-deram-bem-ou-já-encerram-seu-ciclo-de-sucesso. Em geral, apresentam poucos projetos relevantes, ajudam de forma, digamos, duvidosa, parentes e amigos e cuidam com afinco de sua carreira como se defendessem um "feudo". Muito comumente, sobem na hierarquia política, embora sem grande brilho ou impacto. Alguns ganham os holofotes por um tempo, outros jamais vêem a luz das câmeras e a tinta dos jornais - e preferem que seja assim.
E, há, claro, o minúsculo grupo dos que "nasceram para a política". Veja bem: ser um bom político é algo que independe de habilidade intelectual ou bagagem cultural avançadas - vejam os néscios que disputam a tapa e baixaria os "Big Brothers" da vida. Também nada tem a ver com partidos ou a corrente ideológica do sujeito; por outro lado, esta habilidade costuma aparecer espontaneamente. Ou o sujeito vira "empreendedor" ou "político". Não nos enganemos, porém: precisamos destes sujeitos de talento sim, especialmente numa democracia, concorde-se com eles ou não. Se não fosse por esta turma, a política não passaria de um joguinho entre medíocres iguais, trocando favores minúsculos e avançando lentamente sabe-se lá rumo ao quê.
Como não sou suficientemente pequeno para ser mais um vereador dando nomes para ruas, e muito menos possuo habilidades que me garantiriam um lugar na turminha do topo, melhor ficar bem longe disto tudo.
Como bem disse uma amiga: "Marcelo, se você pensar em virar político, eu te interno!".
Pode deixar, não corro este risco.
Propostas indecentes
O deputado federal Nazareno Fonteles, do PT do Piauí, apresentou um projeto de lei estabelecendo o Limite Máximo de Consumo e a Poupança Fraterna. Para quem não entendeu a bagaça, é o seguinte: o nobre político supracitado quer que cada cidadão brasileiro tenha um limite máximo de dinheirinho disponível para sua farra mensal - pelos cálculos toscos deste que vos fala, algo em torno da bagatela de R$ 7.600,00. Qualquer ganho acima deste limite seria automaticamente remetido a Poupança Fraterna, um fundo estatal para financimento de "projetos populares". Ah, o infeliz só poderia sacar do seu fundo no caso de doença, aquisição de imóvel ou após 7 anos de depósitos. Duvida? Então leia aqui, oficialmente.
Ou seja, numa tacada só o sujeito quer "socializar" o Brasil usando como justificativa uma série de estudos e falas de entendidos em "justiça social" e "economia sustentável", de forma a limitar o nosso consumo de recuros naturais e promovendo a distribuição de renda na marra. Alguém poderia, por favor, explicar a este sujeito que os ganhos mensais dos elitistas que recebem mais de R$7,6mil provavelmente não darão para financiar nada além dos já exorbitantes gastos estatais com sua própria máquina? Como é que o nobre deputado pensou que esta "comunização" forçada passaria por debaixo dos tapetes sem ninguém perceber? Propostas como esta só alimentam mesmo a descrença de muitos nos políticos desta terra. Ao invés de lutar pelo fortalecimento da economia do país, a redução de impostos, a diminuição do inchaço e a promoção à excelência no Estado, aparecem-me como "humanistas" inventando uma ditadura econômica travestida de "robinhoodismo" moderninho. O que o Brasil precisa, por mais paradoxo que pareça ser, é o que um economista da FGV relatou em revista a Época (o link é só para assinantes, então nem adianta postar aqui): um choque de Capitalismo, sem dó, começando pelas camadas mais baixas da população. Emprego, educação, incentivo à iniciativa privada, redução de impostos, um pacotão que jamais virá.
A maior garantia de que esta alucinação não vai passar no Congresso é o simples fato de que os deputados recebem acima deste teto de consumo. Eu nunca imaginei na vida que agradeceria aos políticos e sua ambição para derrubar um projeto. Em quê fomos nos meter?

7 de abril de 2004

Eu, o roteirista
Como alguns já sabem, por algum período da minha vida eu achava que seria desenhista. E, claro, qualquer moleque que se preza e que dá seus rabiscos por aí acredita que trabalhará com histórias em quadrinhos. Passei os últimos seis anos sem desenhar quase nada. Este auto-exílio teve um preço grave: sem prática, não evoluí. Embora perceba que sou capaz de um traço muito mais consistente hoje, minhas mãos não o executam porque nem elas, nem meu cérebro e olhos foram treinados.
Como voltei a estudar desenho de maneira, digamos, formal, resolvi encarar o desafio de finalmente desenhar o corpo humano como se deve, mas este não é o assunto em questão. O fato é que neste retorno, acabei descobrindo a Central de Quadrinhos e seu fórum, habitado por um ótimo pessoal, desde iniciantes a retornantes e veteranos, todo mundo disposto a ajudar e trocar idéias e experiências. Pois bem, nestes seis anos parado, dediquei-me a escrever e estudei o trabalho de roteirista. Da fórmula hollywoodiana de Syd Field ao brasileiro Doc Comparato e leitura de muitos roteiros. E foi como (aspirante a) roteirista que acabei dando minha primeira contribuição efetiva no fórum, que havia lançado o desafio de se produzir uma história em quadrinhos. Formaram-se as equipes e os temas foram propostos: “Vida Urbana” ou “Sangue de Pirata”.
A Silvana, uma excelente colorista e desenhista, e o Artur, também excelente desenhista, já tinham uma boa idéia da história que queriam desenvolver, mas faltavam os diálogos e o final. Foi onde eu entrei. Confesso que demorei muito para achar um desfecho adequado a história e minha preguiça para com histórias de piratas não ajudou em nada, mas acredito que tenha obtido um bom resultado.
O projeto todo pode ser conferido aqui, eu postei o roteiro um pouco “abaixo”. Ah, meu apelido no fórum é JetBlack – para quem não sabe, o nome do personagem de um dos melhores desenhos animados japoneses que já vi, Cowboy Bebop.

24 de março de 2004

Ainda sou de Madri
13 dias atrás, num 11 de março, mais de 200 pessoas morreram no maior atentado terrorista da história da Europa. Não me interessa aqui fazer uma tentativa tosca de análise do que ocorreu - até porque já houve um sociólogo brazuca influente e importante insinuando que os EUA têm os dedos sujos na história... francamente, dr. Sader! - ,mas me ocorre que escrevi o seguinte aqui mesmo, em agosto de 2003 :

Terrorismo é palavra que descende do Terror pós-revolução francesa, se eu não estiver falando uma imensa besteira. É, antes de mais nada, uma política de manutenção do medo, de desestabilização do inimigo. Seus meios variam, mas em geral associamos a palavra aos atos violentos cometidos em nome da política, religião, ideologia, o escambau. Todo ato terrorista tem uma mensagem implícita e, não importa sua validade (da mensagem), todo ato terrorista é um crime contra o homem. Ponto final.
Entretanto, o terrorismo jamais será vencido. Porque mesmo que sejam punidos os terroristas (eles merecem punição, sim) e atendidas as reinvidicações justas, sempre haverá aquele que acreditará que a aceitação dos atos "benevolentes" do inimigo foi uma traição, uma indignidade. Este fundará outro grupo e continuará seu trabalho. Mixando auto-mitificação com auto-engano, seu discurso sempre arrebanhará seguidores, quase sempre ainda mais "engajados" do que a geração anterior de acólitos.
Uma vez implantado o medo, ele não sai tão facilmente. Quantas gerações de nova-iorquinos temerão por suas vidas, que podem ser abreviadas num momento de algum dia qualquer? - nem precisa ser 11. Israelenses, palestinos, indonésios, hindus, todos subjugados pelo medo. O objetivo do terrorismo não é matar - esta é uma das formas de ação. Com a tragédia, ele impõe sua ordem e se torna mais forte do que o Estado, atônito, incapaz de proteger os cidadãos de uma ameaça que anda ao lado deles.
É por isto que o terrorismo acaba vitorioso, mesmo depois de derrotado.


Não há um único inimigo articulado e imenso, como quer nos fazer acreditar a retórica dos Bushs e Rumsfelds da vida, mas uma rede de organizações, unidas por conveniência, aliciando membros dissidentes aqui e ali para fazerem o trabalho sujo. Gente que conhece e usa bem a tecnologia. A Al-Qaeda é apenas uma delas, talvez a principal, e a de maior visibilidade até então. E, ao contrário do que dizem as especulações sem provas dos teóricos de conspiração com diploma universitário, o mais provável é que seja mesmo a Al-Qaeda a mentora do ataque em Madri.
O uso político do atentando para acusar o ETA acabou custando a reeleição para Aznar. Resta agora saber se os socialistas vencedores conseguirão gerenciar a Espanha pós-11 de março e articular com o restante da Europa as medidas de segurança que, inevitavelmente, virão a seguir.
De qualquer forma, se somos de Madri no momento do choque, do horror e da indignação, que sejamos também no exemplo - poucas horas após os atentados, havia tanta gente doando sangue que os serviços de atendimento às vítimas tiveram de pedir o fechamento dos postos, que operavam além da capacidade e da necessidade.
Contra a blogosfera
A Globo.com iniciou a temporada de caça aos blogs hospedados em seus serviços. Não adianta reclamar; ou você é assinante da Globo ou tiau, blog. Sem dó. Sem piedade. Simples assim. Quem não for assinante tem direito a apenas 10Mb de espaço para suas tranqueiras. E isto é só o começo. Segundo o Alexandre Inagaki, do Pensar Enlouquece, há empresas ameaçando acionar blogueiros judicialmente quando o nome do blog faz referência a um produto. A estupidez da medida chega a ser abissal, especialmente no caso do Amarula com Sucrilhos, já que em nenhum momento a marca era desrespeitada ou usada para benefício próprio - leia-se lucro. Outros blogueiros estão recebendo ameaças por telefone (!!!) após criticarem esta ou aquela empresa e seus serviços.
Era só mesmo o que faltava.
Após longo e tenebroso inverno...
... estou de volta. Problemas de saúde, no trabalho, pessoais, um escambau carregado de trapizongas me atropelou no início deste mês e me impediu até de colocar meu site de volta ao ar, infelizmente. Neste tempo de ausência, o mundo girou bastante e eu não comentei coisa alguma. Houve o atentado em Madri, a polêmica do filme A Paixão de Cristo, a TV se tornou um território definitivamente inóspito e estúpido e a blogosfera brasileira está sob ataque.
Vamos por partes, portanto...

1 de março de 2004

Uma notinha sobre o Oscar...
Do Cinema em Cena, Renato Silveira comenta, neste artigo, a estupidez da imprensa nacional na sua relação com o Oscar e o excelente filme Cidade de Deus.

Quanto a Cidade de Deus, é bom deixar claro uma coisa: o filme não perdeu nenhum Oscar. É irritante ver como a mídia brasileira trata as coisas depois de uma decepção. Logo após o fim da cerimônia, os principais veículos online nacionais traziam estampados na capa: “Cidade de Deus perde para O Senhor dos Anéis”. Creio eu que, para perder, é preciso primeiro possuir tal coisa. É algo que eu venho dizendo desde 2001, quando o fraco Abril Despedaçado era cotado para uma vaga na categoria Melhor Filme Estrangeiro e organizou-se uma torcida em volta dele: cinema não é futebol. Nem a própria Academia trata os indicados com tal desdém, tomando o cuidado de não anunciar “o vencedor é”, quando os envelopes são abertos. Também é curioso ver como as pessoas, de repente, passaram a ligar para o filme, sendo que há um mês ninguém esperava pelas indicações. Ora, já foi mais do que dito que essas nomeações valem muito para o cinema nacional, independente da conquista ou não do Oscar. Gostei de ver o bom humor de Fernando Meirelles quando os indicados a Melhor Direção foram anunciados. E quando o nome de Peter Jackson soou nos alto-falantes do Kodak Theatre, era nítida a expressão de Meirelles, como se dissesse: “Claro, todos já sabiam e ele merece mesmo, valeu estar aqui”. Desde que foi indicado, o diretor falava que não guardava expectativa de vencer. E o restante da equipe também tinha ciência de que Cidade de Deus estava ali como convidado de honra. Então, fica a pergunta: a quem especificamente é direcionado esse baixo astral nas manchetes? Aqui no Cinema em Cena, tomamos muito cuidado para não dizer “Cidade de Deus perde Oscar”, em nossa cobertura em tempo real. Pode até ser um detalhe semântico, mas é nisso que é baseada a comunicação. É vergonhoso, portanto, que esta parte da imprensa brasileira, que com as indicações elevou Cidade de Deus a glória de “melhor filme brasileiro já realizado”, agora o trate como um reles perdedor. Para nós, cinéfilos, o filme continua com seus méritos. Mas para os outros milhões de leitores, “o Brasil ficou sem nada mais uma vez”. E se fazem questão de usar o termo “perdemos”, digo: pelo menos, desta vez foi para O Senhor dos Anéis, e não para um embuste como Shakespeare Apaixonado.

Para quem não se lembra, o mediano Shakespeare Apaixonado venceu o excepcional O Resgate do Soldado Ryan.

26 de fevereiro de 2004

G.R.E.S. Unidos de Tolkien pede passagem
Pedro Sette Câmara, do blog O Índividuo, criou e postou este samba-enredo para o Senhor dos Anéis. Sou obrigado a reproduzí-lo aqui, pois ficou ótimo, com todos os tiques e esquisitices deste gênero musical:


Samba-enredo do Senhor dos Anéis

(seguindo a maneira de cantar dos puxadores, o leitor deve desconsiderar várias das elisões)

Olha a União do Condado aí, gente! Chora cavaco! Alô Terra Média!

Foi no reino de Mordor
que Sauron criou o anel
que espalhou tamanha dor
antes de se perder
Mas um dia – mas, um dia! –
quem não queria aventura
só viver na fantasia
conheceu toda a loucura
do anel e seu poder

Frodo (Frodo!)
Era um hobbit fascinante
de um paraíso distante
cheio de alegria e amor
Um belo dia descobriu
aquele anel do tio Bilbo
e foi assim que tudo começou

Refrão 2x

Vou salvar o mundo, eu vou
Acabar com o reino de Mordor
Destruir os orcs, sem temor
Agora a aventura me encontrou

Aragorn é cavaleiro
Grande rei da raça humana
Legolas, o elfo arqueiro
Sempre com tiros certeiros
Traço do povo imortal
Gimli é seu forte companheiro
Um anão nada ligeiro
Mas com poder descomunal

Uma sombra segue os hobbits
Como eles foi um dia
Será Gollum, será Sméagol
Mas o nome não importa
A criatura horripilante
Completamente delirante
Somente pensa no anel

Refrão ad nauseam
Resssssssssssssssssssssaca...
De volta da farra momesca, este que vos fala nada pulou, nada viu de Carnaval na TV ou jornais, isolei-me da festa desta vez. Não que eu seja de fato um folião, nunca tive lá muito jeito para a coisa. Sou doente da cabeça e do pé, péssimo jogador de futebol e sambista, não exatamente nesta ordem. Serviu o feriadão para colocar um bocado de coisas desfeitas e desorganizadas na vida pessoal em relativa ordem, para reler muito do que já escrevi, repensar algumas outras, refletir sobre um ou outro clichê de auto-ajuda e revistas Você S.A. da vida. Não tenho traumas por não participar da festança - simplesmente não seria eu se me forçasse a entrar neste jogo tropical(ista) no qual submerge o país por alguns dias. Ponto final.
O novo Anacrônicas está pronto, mas gostaria de contar com mais colaboradores escrevendo - isto vem com o tempo e alguma paciência. O site entra no ar definitivamente na segunda-feira, dia primeiro de março.
Prometo que ano que vem eu viajo para montanhas. Nada de praia, quero ar puro e rarefeito, ideal para arejar uma cabecinha mineira.

10 de fevereiro de 2004

Sim, os norte-americanos, de novo...
A fantástica capacidade de os norte-americanos se escandalizarem por qualquer bobagem é sempre subestimada. Bastou a Janet Jackson exibir rapidamente o seio direito, cujo mamilo estava coberto por um piercing ridículo em forma de estrela (ou sol, sei lá, era tosco demais para prestar atenção) para desencadear uma guerra pelo país.
Antes é preciso entender que a final do SuperBowl é o mais importante evento popular deles. Mais importante do que a final de qualquer campeonato ou copa de futebol aqui da terrinha nhambiqura, mobiliza milhões de americanos em frente a TV - e move milhões de litros de Budweiser e milhares de toneladas de frango frito. Famosos também são os shows do intervalo. Um é o Lingerie Bowl, em que dois times de beldades (as rosinhas e as branquinhas; singelo, não?, mas quem está preocupado com as cores, afinal?) disputam uma partida para delírio da platéia masculina - mas só quem vai ao estádio ou compra o evento em TV por assinatura pay-per-view pode ver a querenga. Aberto para todos é o show musical onde aconteceu a tal exposição do seio da irmã daquele cantor pop que já foi muito famoso e hoje vive de dizer que não tem nada a ver com criancinhas. Milhões assistiram a aquela estultice. Mas, ainda mais gratuito do que o ato em si foram as reações originadas.
A organização do Oscar vai atrasar o áudio em alguns segundos para decidir se deve levar ao ar ou não o que for dito pelos vencedores. Uma professora resolveu processar as emissoras de TV. O tal modelo de piercing é agora procurado nas lojas especializadas e na internet (o mesmo aconteceu quando uma personagem do seriado Sex and the City elogiou um modelo de, digamos, estimulador sexual, conhecido como Rabbit - coelho). De qualquer forma, o que torna um patético piercing um novo item na atração sexual entre homens e mulheres (e outras combinações)? Um pedaço de ferro enfiado na pele, por pura vaidade ou desejo de estar na moda. Há até uma brasileira que entrou para o Guinness por ostentar o maior número de piercings já registrado - e nem queira saber onde ela andou escondendo alguns, porque isto é segredo de estado, mas consta que o pessoal do Guinness teve de contar um a um para garantir-lhe o prêmio. Eu, particularmente, não vejo nada de especial numa mulher devidamente metalizada, mas a garotada adora. Ainda vou perguntar a um psicólogo a razão deste fetiche modernoso.
E o episódio ainda acabou respingando em Bono Vox, vocalista de primeira do U2 e militante (chato, como quase todo militante, mas parece um tanto sincero): há um ano o sujeito falou um singelo fuck na premiação do Globo de Ouro, quando venceu com a bela The Hands That Built America, do filme Gangues de Nova York. Pois bem, a FCC (Federal Communications Commission) está processando Bono por isso. Eles ainda pretendem eliminar da programação da TV qualquer palavrão - Como South Park vai sobreviver? Confesso que gosto das aventuras toscas daquela trupe de bocas-sujas, cujo longa-metragem foi recentemente exibido no SBT sem amenização de espécie alguma. Não li nada a respeito até agora.
De qualquer forma, restam aos EUA culpar o Canadá por tudo isso, como fizeram no universo do filme South Park - Bigger, Better and Uncut. Apagão na costa leste? Culpa do Canadá. Vacas loucas (não estou falando de cantoras que mostram o... 'tá bom, você já entendeu)? Canadá.
Blame Canada, blame Canada!
O Apocalipse dos Animais
Alguém andou envenenando os animais do zoológico de São Paulo. Até agora, morreram 10, incluindo um elefante, dois dromedários e quase todos os chimpanzés - a exceção de um, que agora é mantido isolado e sob estrita vigilância. Segundo os peritos, o produto químico usado é mesmo que compõe o princípio ativo do mau e velho veneno de rato, atualmente proibido, mas facilmente encontrado no mercado negro das bagaças mortíferas, como líquidos diversos, armas roubadas das Forças Armadas e discos de MC Serginho. Ainda segundo uma perita que analisou a contaminação tóxica dos bichos, basta um décimo de grama para matar um homem adulto de 70 kgs. Isso mesmo: esta coisa mata um elefante africano com a maior facildade.
A polícia já está no encalço do imbecil meliante, o primeiro psicopata perseguido pela força policial que ataca seres de outras espécies. Bom, pelo menos no zoô de Sampa.
Gato escaldado...
Convém olhar com cuidado o circo que a mídia está armando em cima de um pré-candidato democrata às eleições nos EUA este ano. Dado o histórico de bobagens cometidas pelos mais diversos meios de comunicação na hora de apoiar políticos ainda candidatos, é de se observar com toda a cautela. Já imaginou a gente tendo saudades do Bush? Argh.

6 de fevereiro de 2004

The Freak Show

Antonela foi alvo de críticas das mulheres. Em conversa com Juliana, Sol e Géris, Cida contou que a argentinha tem algumas "porquices".

- Quando ela vai experimentar uma comida, coloca na boca e cospe quando percebe que não gosta. Por que não joga no lixo ou no canto do prato?, afirmou ela, diante das manifestações de nojo das outras meninas.

Géris também comentou que seu leite sumiu e que somente Antonela e Marcelo estavam na cozinha.


A aberração acima eu extraí de uma notícia divulgada no IG e diz respeito aos sujeitos que participam do tal Big Brother Brasil 4, ou BBB4, para os íntimos. Nem preciso dizer que não perco meu escasso tempo com aqueles babacas, preciso? Mas não pude deixar de escrever algo a respeito, infelizmente, contrariando Ezra Pound, que dizia que o grande crítico deveria ocupar-se apenas dos grandes escritores. Como não sou grande crítico nem os manés do BBB grande coisa alguma, mando o conselho de Pound às favas e desço a lenha neles, sem dó.
BBB é a glorificação da inutilidade. Perceba: eles não fazem coisa alguma dentro daquela casa a não ser alimentar a estupidez das falas uns dos outros, as intrigas minúsculas que fazem a alegria de um público espectador reduzido a uma existência insignificante. A questão não é que o BBB imbeciliza, mas que ele espelha a absoulta falta de perspectivas pessoais que orienta a vida de quase todo mundo. Jogados num ambiente limitado, reagem com seus próprios limites - burros, nojentos, ignorantes, babacas no pior significado da palavra.
Aquele mesmo proferido por Pedro Bial: no BBB, ou vence o babaca ou a vagabunda.
Cuidado, porque isto vale para quem assiste também.

4 de fevereiro de 2004

Amada vida, minha morte demora
Na madrugada desta quarta-feira, aos 74 anos, faleceu Hilda Hilst, no Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas. Escritora absolutamente ímpar, parte sem que o Brasil saiba de suas letras. Não perderei tempo aqui remoendo as mazelas de uma naçãoo que não lÊ aqueles que mais tÊm valor, apenas peço que visite o Site Oficial de Hilda Hilst e leia. Se for como eu, que ainda deseja pertencer a este mundinho de textos, aprenda com ela que não se faz literatura com covardia, pudores ou vontade de agradar. Sinta-se livre para fracassar - o que, definitivamente, não foi o caso dela.
Leia, leia, leia apesar do luto.
Do mesmo site, extraio um trecho iluminado da crítica que Caio Fernando Abreu escreveu de A Obscena Senhora D, em 1982:

Sons, trinados, gritos, urros, rouquidões. Asa. Impossível aventurar-se nestas páginas sem entrega. Inútil municiar-se apenas das armas da razão. Hipnótico, o discurso de Hilda envolve como águas - às vezes lodosas, às vezes claras - e numa vertigem nos arrasta, de susto em susto, cada vez mais para perto daquilo que Joyce chamava de "o selvagem coração da vida". Onde tudo pode acontecer. De uma facada pelas costas a um apaixonado beijo de amor, "jorrando volúpia e ilusão". Traiçoeiras e sensuais, as palavras ofegam e palpitam, como se tivessem carne, sangue, músculos, nervos, ossos. E além disso: uma aura impalpável, uma alma indizível. Uma alma que procura cega, obsessiva, pelo invisível que nos disseram haver um dia: Deus.

Leia, porque o Anacrônico estará fechado hoje.

2 de fevereiro de 2004

É o fim dos tempos!
Doom é isso aí; fim dos tempos, fim de tudo, puf!, entropia, retorno a singularidade, escambau. Mas o nosso querido MyDoom é coisa mais singela - um vírus de computador, um programa criado de forma maliciosa para se aproveitar da ingenuidade alheia e fazer coisa feia no Windows dos outros. MyDoom, porém, é um tanto diferente: ele não se aproveita de uma falha específica do sistema operacional, ele confia sua eficácia no ato de abrir um arquivo anexado no e-mail. O sujeito recebe um e-mail de uma amiga com o título "Hi!" (por que a amiga escreveria em inglês é uma pergunta que sequer passeia pelos neurônios do nosso amigo... enfim...) e abre o arquivo anexado: Buemba!, diria o José Simão. O tal do MyDoom se reproduz feito coelho hermafrodita e já tasca e-mails para todo mundo que você conhece e ainda envia mensagens a partir do seu computador como se fosse um dos amigos da sua lista de contatos. Esta manobra lotou a internet nos últimos dias e parecia que todo o mundo se convertera instantaneamente numa conexão discada a provedor gratuito no domingo a tarde.
MyDoom é apenas o início. Estão vindo novos vírus por aí, tão simples quanto poderosos. Por mais que os teóricos da conspiração queiram enxergar caraminhola, com os suspeitos de sempre (a máfia russa, as empresas de anti-vírus, a CIA, a Al Qaeda ou a dona Clotildes), o mais provável é que esta diminuta e poderosa bomba cibernética tenha mesmo sido obra e graça de um moleque a fim de testar os limites da nossa frágil internet.
No mais, se você receber um e-mail do Anacrônico com o título "Hi", pode jogar fora. Primeiro, porque eu não sou jeca o suficiente para mandar mensagens com títulos em português; certamente é MyDoom se esgueirando por aí.

31 de janeiro de 2004

Feels Like Home
No último ano, tive três CDs (devidamente "ripados" para MP3, senão eu não os ouviria no meu instrumento de trabalho mais comum) que ouvi até furar: Ventura, dos Los Hermanos, a descoberta do talento de Maria Rita e Come Away With Me, de Norah Jones - só fui ouvir Queens of Stone Age atrasado, então fica fora da lista. A roupagem jazzística, um toque de country e uma bem medida porção pop são uma combinação quase irresistível. Agora ela prepara um novo álbum, um tanto assustada com a repercussão do primeiro, previsto para aportar nas lojas logo aí, no dia 10 de fevereiro. Não, Jones não possui a potência para ser lembrada pelo resto dos tempos como Holiday ou Fritzgerald, mas mescla perfeitamente seu imenso conhecimento de jazz e sua herança musical com suavidade e alguma ousadia. Não se espera que Feels Like Home represente uma ruptura tão gigantesca quanto foi, por exemplo, Ventura, o que seus recém-conquistados fãs (como eu) aguardam é apenas que ela cumpra o compromisso que ela afirma, despojada: ser ela mesma.

22 de janeiro de 2004

Putz
É, demorei para voltar - uma das razões é que estive trabalhando no novo Anacrônicas.com. O site antigo está no ar há longos dois anos, tem uma audiência meio baixa e já passou da hora de mudar este cenário. Não vou escrever mais sozinho no site; a idéia é ter um grupo de colaboradores mais ou menos periódicos, "fixos" e publicar crônicas e textos sobre cinema e literatura de quem se interessar.
Claro que eu vou limitar a bagunça, funcionando como um editor do site, teremos nossas regras e limites, como qualquer pedacinho de chão virtual que se preze. Já convido a quem se interessar para mandar um e-mail para oanacronico@uol.com.br.
Em breve, mais notícias.
Finalmente, alguém concordou comigo!
Lendo o site Burburinho, encontrei esta resenha de Nemo Nox para o filme/animação Final Fantasy. Sem dúvidas, a técnica é de cair o queixo, mas o roteiro... é um dos mais estúpidos que já vi. Ao menos alguém neste imenso universo concorda comigo.

15 de janeiro de 2004

Baixou o Diogo Mainardi em mim!
O de sempre: O Rio diz que precisa dos turistas, então dá-lhe escola de samba e mulata rebolando! É um espetáculo grotesco, terceiro-mundista, clichê cultural. Não há ninguém, ninguém nesta terra nhambiquara que veja o quanto é idiota exibir esta subserviência "feliz", "espontânea". É repulsivo ver os estrangeiros dançando (estrebuchando?), ridícula e pateticamente felizes, ao som dos nossos tambores. É um arremedo de país este que recebe os turistas; primeiro eu te ficho, depois vem cá, meu gringo cheiroso, vamos nos esbaldar nesta terra onde tudo é permitido. E ainda reclamamos de eles nos imaginarem como um bando de índios metidos em ocas e fazendo filhos como ratos pervertidos. Tenha santa paciência! Mais uma vez dizemos ao mundo que nos resumimos a isto: uma escola de samba. Quando digo que há momentos (e não são raros) em que me envergonho genuinamente de ser brasileiro, alguém me diz que "não posso pensar assim".
Olha aqui, meu amigo pseudo-patriota: Posso sim! Posso e penso! País que recebe turista com bundas e flores não é lugar sério, não passa de rascunho primitivo de algo que almeja e rejeita ser. Somos o país do signo trocado - desejamos ser aquilo que rejeitamos e nos orgulhamos de nossos defeitos. Assim, uma medida justa como o controle da entrada dos norte-americanos no país se transforma numa "revanche" contra os ricos, contra os "porcos imperialistas". Assim, um imbecil de dedo médio em riste (sim, o sr. Dave, o piloto que criou um quiprocó desnecessário no aeroporto paulistano, merece o "elogio") se torna símbolo da arrogância ianque e da nossa suposta superioridade. Pára o circo que está tudo errado!
Fichando norte-americanos ou não, continuamos a ser o país de meia-pataca que sempre fomos e seremos. Com nossa ignorância, nossa corrupção, arrogância, jeitinho, atraso, miséria, elites, burrice endêmica, intelectuais, e o escambau. Sim, meus amigos, os maiores culpados por esta terra ser isto que ela é somos nós mesmos. E merecemos a auto-crítica sim, já que ela foi soterrada por este momento estúpido de troco contra os desmandos do novo Império.
Aos norte-americanos, nem bunda, nem cadeia, apenas o justo. E está na hora de cuidar da casa. Mas isto jamais acontecerá.

14 de janeiro de 2004

Ah, estes (ultra) conservadores...
Agora o governo de George W. Bush pretende colocar em prática um programa para incentivar casamentos. A idéia é agradar a sua base conservadora e garantir mais votos para a reeleição. Seriam destinados 1,5 bilhão de dólares para a loucura, ops, o programa. Não deixa de ser curioso um governo lançar mão de uma medida oficial que afeta diretamente a privacidade e as escolhas dos indivíduos - em outras palavras, é uma bobagem sem pé nem cabeça, e que faz algum sentido para os ianques.
Mas engana-se quem acredita que os EUA são um antro de conservadorismo. A reação a tal proposta tem igual teor de mediocridade: Segundo um advogado do NOW Legal Defense and Education Fund, "Tais programas invadem a privacidade, podem ignorar o risco da violência doméstica e podem coagir as mulheres a se casarem". O sujeito acredita que todo casamento corre risco de se transformar numa masmorra medieval e que as mulheres não têm cérebro suficiente para fazer suas próprias escolhas - inclusive as erradas.
Primeiro, Bush prometeu a estação lunar e a viagem a Marte. Agora já sabemos o que ele quer fazer com os felizes casais que surgirem destas uniões patrocinadas pelo estado: Vai todo mundo colonizar o cosmo!
A propósito, nem (digo: muito menos!) se for financiado pelo governo, o autor deste post pensa em se casar tão cedo.

12 de janeiro de 2004

Um post longo, pessoal e confuso emendado com São Paulo

Minha família abandonou o interior de Minas Gerais uma geração atrás e provavelmente somos os únicos belo-horizontinos que não sentem saudades da vida interiorana. A cidade desde cedo me fascinou (certo, eu tive minha fase de biólogo mirim e sempre gostei de montanhas, floresta e mar, não tanto de praia) – acabei adotando-a definitivamente. Não era para menos, aos sete anos demos o passo definitivo rumo a nossa urbanização familiar: compramos um apartamento num bairro distante e promissor. Por sorte, estávamos certos; o bairro cresceu e agora enfrenta os conflitos de todo centro jovem. Lembro minha infância da janela do quarto que eu adorava olhar; a gente ainda vê hoje boa parte da cidade. Imaginar quem morava lá no alto dos morros, ver os carros passando pela rodovia entre árvores aparentemente gigantescas – nem sei quantas horas passei exercitando uma imaginação que se alimentava ironicamente da realidade visível aos olhos. E que realidade. Antes que uma grande fábrica no distrito industrial fosse finalmente fechada, a poluição marcava os olhos dos prédios com lágrimas de fuligem. Mesmo hoje ainda desenho cidades imensas e poluídas. Tolkien sofrera muito quando foi obrigado a se mudar, ainda menino, dos campos da África do Sul para a Inglaterra industrializada. Eu não sofri, a cidade me adotou.
Oliver Sacks (se não me engano) já disse que há um grande desprezo pela excitação da vida urbana. É verdade. Veja o Rio de Janeiro de Machado de Assis, a Dublin de Joyce, a Nova Iorque de Woody Allen, a São Paulo de Oswald e Mário – há um misto de perigo e fascínio nestes mundos urbanos, cruéis como um vilão de Dickens, irremediavelmente sedutoras, charmosas como Greta Garbo. Opressoras e belas, as cidades se espalham vorazes, devorando espaços sem pedir licença e sem educação alguma, uma tragédia anunciada e encenada milhares de vezes. Vivemos numa sociedade urbana e o caminho inescapável de todo país que se desenvolve é este.
Não há nostalgia do campo que resista a sua realidade. Nostálgicos rurais são idealistas, imaginam construir uma casa numa chácara e viver de vácuo e ócio. Bobagem. Campo é sinônimo de trabalho, duro, tão cruel quanto o urbano – homem, mulher e criança, quatorze horas por dia, contra o tempo, a terra, os bancos e o governo. Alguns ainda acreditam ser possível um retorno do homem a sua origem agrária, a sua suposta “relação harmônica com o ambiente” (meio ambiente é pleonasmo, sabemos disto). Posso estar errado. Seja como for, a escolha do meu destino “urbanóide paranóico”, nas sábias palavras de um colega, já foi feita. Duro, para este nada idealista que você lê, é viver longe das livrarias onde se conversa de graça com um estranho porque nos interessamos pela mesma prateleira. É não ter cinema (tragédia sem igual o fim das salas de exibição) para assistir a um filme-bobagem hollywoodiano ou um delicioso pastel de vento metido a intelectual. É ter como lazer apenas o bar e a praça da igreja. É estar longe do hospital, do transporte, da farmácia - embora se pague muito caro por eles. Lamento a balbúrdia, o trânsito, a violência crescente, mas pago o preço por minha escolha. Um mundo de responsabilidades e escolha. Ora, que o ócio eterno vá para o inferno – prefiro uma vida excitante e perigosa a promessa de um descanso sem razão e origem.
Então, chegamos a São Paulo. Conheço pouco dela; a av.Paulista; o Colégio Marista apinhado de adolescentes numa convenção de cultura japonesa; a garoa-personagem insistente; o jardim da Pinacoteca, caminhando com uma amiga muito querida; o museu de arte; o medo do assalto, as histórias das vítimas; o avião descendo em Congonhas como se fosse desabar sobre as ruas e os prédios; o terminal rodoviário quase insano em tantos movimentos; os fonemas de todo o mundo e brasileiros de todos os brasis – mineiros, baianos, amazonenses, cariocas, até mesmo paulistas!
Porém, não sei se viveria em São Paulo. Talvez ela extrapole minhas pretensões urbanas com sua opulência de erros e acertos. Mas não nego minha atração por ela, embora eu não a ame como a minha cidade. É que somos apenas bons amigos e, na verdade, nos vemos raramente. Tenho carinho por ela e, notem que isto não é pouco. É fácil demais odiá-la, e não raro seus habitantes agem como os parisienses, que estão sempre a reclamar da torre, do arco, do pãozinho e da má educação que lhes atribuem. Mas orgulham-se de suas contradições até como uma certa alegria.
Então é isto, São Paulo. Aprendemos a amar suas contradições - que, no final das contas, são as nossas.

10 de janeiro de 2004

Hurt

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hold
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

Chorus:
What have I become
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

Chorus:
What have I become
My ssweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Esta é a versão de Hurt, música do Nine Inch Nails, cantada por Johnny Cash para o videoclip que rodou e emocionou o mundo em 2003. Poucos dias depois de gravá-lo, Cash faleceu. Procure o clip, o mp3, sei lá, apenas não fique sem ouvir esta versão. É tudo.
Monstro de duas cabeças
Paul Johnson algumas pessoas conhecem; intelectual conservador, crítico do politicamente correto, autor do polêmico Intelectuais em que demole a imagem "bonitinha" desta bizarra classe, exibindo-os como foram e eram: homens e mulheres movidos por interesses mesquinhos, vaidades, mau-caratismo como qualquer um de nós. Que Johnson tenha tantos inimigos, isto é natural num meio em que o pensamento contrário ao dele é praticamente a regra. Independente de suas qualidades e problemas, não se pode negar que ele é uma das vozes mais coerentes do pensamento conservador.
Frei Betto muita gente conhece; religioso que se dedica a igualmente bizarra Teologia da Libertação, parece um dinossauro ainda a acreditar no socialismo/comunismo - curiosamente, seus livros e textos concisos fazem um sucesso extraordinário.
Difícil imaginar duas figuras mais distintas, certo? Não para o editor do Livro de Ouro dos Papas, da coleção Livro de Ouro do/da... da Ediouro, uma tradução de uma obra de divulgação escrita por Paul Johnson. Não é que Betto assina o prólogo da edição nacional? Fazendo uma comparação para lá de besta, é mais ou menos como Trótski escrevendo o prefácio de A Riqueza das Nações, de Adam Smith.
A estranha combinação desanda: Betto se aproveita para puxar a brasa para a sardinha da tal Teologia da Libertação, algo que arrepiaria os cabelos do nariz de Paul Johnson.
Mancada feia da boa coleção da Ediouro.

9 de janeiro de 2004

Perguntinha besta...
Onde estava o governo desta terra quando muitos cidadãos brasileiros, sem razão alguma, foram humilhados, submetidos a um interrogatório vil, trancados numa salinha por horas e horas nos aeroportos norte-americanos? Fazia-se turismo em ditaduras do Oriente Médio quando gente de bem foi achacada e forçada a voltar na mesma hora para a sua terrinha sob pena de extradição.
Não houve uma palavra, um pio de protesto sequer.
O outro blog
Sim, é verdade. Registrei outro blog aqui no Blogger gringo, o Gabinete do Dr.Gori - ainda está "vazio". Para quem não sacou a bobagem do título, misturei o título do filme alemão O Gabinete do Dr. Caligari com o Dr. Gori, inimigo do infame defensor japonês da Terra que assisti mil vezes na minha infância, Spectroman.
Ainda a espera de uma boa idéia para um blog de nome tão tosco.

8 de janeiro de 2004

E não é que ele tinha razão???
Rapaz, o Alexandre Inagaki acertou de novo! Acabei de experimentar o Sonho de Valsa de chocolate branco e tenho que admitir (sou um quase-chocólatra redimido): É muito bom! E eu estava com o pé atrás - especialmente depois de experimentar o xarope de angu queimado com acerola que é a Fanta Morango, qualquer novidade gastronômica comercial que aparecia pela minha frente caía na categoria de "bizarrice".
Mas o Sonho de Valsa, esta pequena iguaria que apenas nós, os brasileiros, conhecemos, acertou em cheio.
Errei feio e uma citação pertinente
Opa, errei feio quando disse que os norte-americanos não estavam lá muito preocupados com a decisão brasileira de "fichar" os cidadãos daquele país que fazem a besteira de vir aqui. Colin Powell chiou e o Celso Amorim prometeu medidas.
Li muita bobagem sobre o assunto, mas acredito que as opiniões mais interessantes vieram da revista Primeira Leitura, no artigo De novo, o marketing, de onde cito alguns trechos abaixo:

...
A decisão brasileira de fichar americanos começa a se delinear como algo mais do que um simples desgaste nas relações entre Brasil e Estados Unidos, como revelou a reação irritada do secretário de Estado dos EUA, Colin Powell. Com a entrada de Powell na polêmica, o episódio perde a impessoalidade dos embates diplomáticos — que quase nunca se exacerbam — e ganha status de desentendimento entre governos.
...
No caso, o lucro está sendo contabilizado pelo Planalto. A análise ligeira e fácil do fichamento dos americanos, segundo o princípio da reciprocidade, faz a alegria da população. Os ricos estão sendo afrontados por nativos da terra do Carnaval. As televisões não se cansam de mostrar a humilhação dos arrogantes portadores de dólares imposta pelos miseráveis do real. Que ceia farta para os que já foram os descamisados de Collor, os excluídos de FHC e que agora são os companheiros esfomeados de Lula!
...
Sim, o governo dos EUA agiu errado ao exigir a identificação de brasileiros em seus aeroportos (embora por lá o procedimento dure uns poucos instantes), enquanto preserva outras nacionalidades (cidadãos de países europeus, por exemplo) dessa discriminação. E talvez um juiz federal tenha mesmo o direito de proferir sentença exigindo o mesmo tratamento para americanos que aqui chegam. Mas o governo brasileiro tem o dever de recorrer dessa decisão se ela traz prejuízo ao país. Tanto tem que já preparou esse recurso. Por que não encaminha de uma vez? Ora, as pesquisas mostram que a retaliação aos americanos é o mais novo sucesso popular da gestão Lula.

6 de janeiro de 2004

E o Brasil, hein ?! – II

Ah sim, se o Brasil está certo em “fichar” (baita termo feio!) os turistas norte-americanos? Sim, está, pelo tal princípio da reciprocidade diplomática. Só que, para variar, fez tudo errado.
Quem deveria debater, decidir e definir regras de conduta internacionais não é um juiz do Mato Grosso, mas o Itamaraty. Sem querer desmerecer nem um (o estado) nem outro (o juiz), a cada um a sua responsabilidade - demonstramos mais uma vez a nossa confusão interna ao mundo. Esta medida deveria ser derrubada por um tempo, para que o Ministérios das Relações Exteriores tomasse as rédeas da bagunça em que ela se tornou. Não por antiamericanismo, esta bobagem que muita gente (inclusive o tal juiz, que comparou as medidas tomadas pelos EUA ao nazismo) ainda exibe como sinônimo de independência e inteligência, mas porque esta é a sua função, sua área de atuação. Ora, senhores, mas não foi este mesmo governo que quase armou uma guerra (prejudicial e desnecessária, diga-se de passagem) entre os poderes? Não foi este mesmo presidente que chamou o Judiciário de “caixa preta”? Vai lá saber. Ora, bata no peito, chama a responsabilidade para si e bota ordem na bagunça, governo! É o mínimo que a gente espera.
A propósito, a importância do Brasil no mundo das relações internacionais é, definitivamente, próxima de zero. Nenhum norte-americano reclamou da medida que foi vista com naturalidade – a não ser da demora no desembarque, claro. Os anti-americanos ficaram arrasados, coitados, já que os ianques nem deram bola para a nossa fantástica atitude anti-colonialista contra seus abusos.
Mais um a propósito: os EUA nos incluíram na lista de países suspeitos porque não respondemos aos seus pedidos de investigação de supostos grupos terroristas islâmicos lá embaixo, na Tríplice Fronteira. Supostos mesmo, porque ninguém tem indício algum de ligação alguma de qualquer um lá da ponta inferior do nosso mapa com qualquer Osama Bin Laden da vida.
E o Brasil, hein ?! - I

O Brasil é o país das oportunidades perdidas, ou, como diria a chata da Pollyana, latentes. Temos poucos turistas para tanto chão, gastamos fortunas com transporte rodoviário em estradas esburacadas quando deveríamos investir no ferroviário, consumimos e pescamos pouco peixe para tanto mar e tanto rio, temos pouco emprego, pouca oportunidade para tantos cérebros. 2004 definitivamente não será diferente. No que me diz respeito, nada mudará no cenário cultural/educacional desta terra, o que quer dizer que nada, efetivamente nada, vai melhorar significativamente - e sabe por quê? Porque nenhum país fica de pé por muito tempo sem uma base cultural sólida, coisa que não temos – está tudo disperso, separados por esforços heróicos aqui e ali, briguinhas ideológicas dispensáveis e intelectuais de meia-pataca a dar com o pau, como o bom e velho homem que falava javanês, de Lima Barreto.
“[...] duvido que um dia o Brasil venha a se tornar uma nação letrada. Se por acaso isso acontecer, certamente lerá os livros errados. Se calhar de ler os livros certos, só dirá bobagens sobre o que leu.”, escreveu Diogo Mainardi na crônica Ler não serve para nada, publicada na Veja de 28 de março de 2001.
Clique aqui (http://www.escritoriodolivro.org.br/leitura/mainardi.html) para ler a crônica completa.
De volta, de novo!

Certo, o bendito 2003 já é uma lembrança. A passagem do ano foi aquele festival de sempre. Ao contrário do Carnaval, que se contenta em ser uma repetição um tanto chata dos mesmos sambas, músicas e passos do anterior, a passagem de ano está irreversivelmente ligado a noção do novo. Esperto, o Ano Novo consegue a proeza de não ser chato. Embora eu não considere o Natal chato, apesar de ele também não superar a senaação de déja vu. Ok, eu confesso: meu problema é mesmo com o Carnval. Mas isto é assunto para outros carnavais - desculpe, eu não resisti ao trocadilho.
O fato é que o desejo de se fazer algo novo logo no início do ano tem que ser aproveitado. Aquelas promessas pessoais/estéticas/saudáveis de sempre dão o tom: parar de fumar, parar de beber, parar de olhar pelo decote da secretária do chefe antes que ele perceba e te defenestre para o olho da rua. Bom, eu pretendo coisas diferentes- algumas guardo para mim, afinal não escrevo blog para ficar contando detalhes íntimos. Fiquemos com o público, afinal: O Anacrônicas.com tem grandes ambições. Tudo vai depender dos primeiros seis meses deste ano. Detalhes em breve.
Ah, e que 2003 vá para os quintos dos infernos.