Evitei o assunto o quanto pude - já há blogs demais dando suas opiniões sobre o caso da norte-americana Terri Schiavo, condenada a morrer pela justiça. Então, para encurtar logo a questão, recomendo a leitura do artigo de Reinaldo Azevedo, A Morte de Terri Schiavo e o direito de regar gerânios.
E assino embaixo.
30 de março de 2005
23 de março de 2005
Sexo e Baticum II
Será sucesso na Inglaterra o documentário Sou Feia, Mas Tô na Moda (é sério), de Denise Garcia e da produtora de Allan Sieber, Toscographics. Sim, o atual funk carioca é cultura. Goste-se dela ou não.
Exorcismo papal
O papa João Paulo II, apesar dos sérios problemas de saúde, participou do exorcismo do demônio de Garanhuns no último sábado, dia 12 de março. O auto-denominado ocupou o corpo de um famoso presidente de um país inexpressivo e igualmente famoso do Terceiro Mundo. O correspondente do New York Times, Larry Rohter, deu uma entrevista exclusiva narrando o impressionante acontecimento.
OAnacrônico - E então, como foi o evento?
Rohter - Foi incrível. Usando uma conexão de voz sobre IP, o papa João Paulo II chamou o presidente no intervalo do jogo para uma videoconferência.
O Anacrônico - Um telexorcismo?
Rohter - Podemos dizer que sim. O fato é que o presidente voltou para o segundo tempo mais disposto, mesmo ficando no banco até os últimos dez minutos.
OAnacrônico - E o que aconteceu?
Rohter - Nada, o que só comprova a eficácia da sessão de exorcismo. Nos dez minutos em que jogou, o presidente não chegou sequer aos pés do seu amigo Sócrates, embora a forma física de ambos seja parecida.
OAnacrônico - Ou seja, estava livre do capeta, certo?
Rohter - Isso mesmo. Graças aos esforços do papa João Paulo II. Há boatos de que o presidente, livre do encosto que o afligia, até anda pensando em baixar a astronômica taxa de juros.
OAnacrônico - O presidente consumiu bebidas alcóolicas no evento?
Rohter - Eu me abstenho de responder a esta pergunta.
A qualquer hora, mais informações relevantes aqui n'O Anacrônico.
Quer a verdade? Aqui e aqui ó.
OAnacrônico - E então, como foi o evento?
Rohter - Foi incrível. Usando uma conexão de voz sobre IP, o papa João Paulo II chamou o presidente no intervalo do jogo para uma videoconferência.
O Anacrônico - Um telexorcismo?
Rohter - Podemos dizer que sim. O fato é que o presidente voltou para o segundo tempo mais disposto, mesmo ficando no banco até os últimos dez minutos.
OAnacrônico - E o que aconteceu?
Rohter - Nada, o que só comprova a eficácia da sessão de exorcismo. Nos dez minutos em que jogou, o presidente não chegou sequer aos pés do seu amigo Sócrates, embora a forma física de ambos seja parecida.
OAnacrônico - Ou seja, estava livre do capeta, certo?
Rohter - Isso mesmo. Graças aos esforços do papa João Paulo II. Há boatos de que o presidente, livre do encosto que o afligia, até anda pensando em baixar a astronômica taxa de juros.
OAnacrônico - O presidente consumiu bebidas alcóolicas no evento?
Rohter - Eu me abstenho de responder a esta pergunta.
A qualquer hora, mais informações relevantes aqui n'O Anacrônico.
Quer a verdade? Aqui e aqui ó.
14 de março de 2005
Cineasta preso ao tentar se passar pela sua mãe
Woody Allen foi preso ao se passar pela própria mãe, quando tentava receber a pensão
em seu lugar. O fato foi apurado por um repórter da linha investigativa gonza num banco de Wall Street e fotografado pelos funcionários do banco, que desconfiaram da voz fanhosa e das anedotas inteligentes contadas pela suposta idosa. Allen alegou, após ter sido preso, que estava fazendo uma pesquisa de campo para sua nova comédia, Eu, Minha Mãe e Sua Pensão, refilmagem de um obscuro filme sobre jazz produzido na Áustria em 1936. Ainda afirmou que tudo não passou de uma piada inteligível apenas pelos seus fãs mais fiéis, aqueles que começaram a acompanhar sua carreira com What´s Up, Tiger Lily. Citando (e já afirmando que não lera e não gostara) o livro Código daVinci, concluiu, para deleite dos jornalistas presentes, que as pistas para esta peripécia foram espalhadas em seus filmes Bananas, Annie Hall, Zelig, A Rosa Púrpura do Cairo e alguns outros que preferiu não citar. Allen disse que lançará um concurso cultural para premiar o fã que identificar as demais pistas com ingressos para um ano ouvindo-o tocar clarinete num pub londrino em Manhattan.
Quer a verdade? Aqui ó.
Quer a verdade? Aqui ó.
13 de março de 2005
Sexo e baticum
Já aviso sobre meu gosto musical: não passa de uma imensa confusão. A primeira coisa a qual presto atenção quando ouço uma música é a sua letra; não tenho conhecimento técnico algum para afirmar se uma melodia é inovadora, se a harmonia é eficiente. Talvez culpa de minha formação literária em formação, o fato é que, numa primeira impressão, pouco me interessam as qualidades estritamente musicais das canções, se a letra não me disser coisa alguma, mando a composição para a lata de lixo da memória - sem dó nem piedade. Por isso afirmo o que poucos querem admitir: o funk carioca é uma porcaria maior do que muitas que já ouvimos por aí.
Que se danem os antropólogos e sociólogos que escrevem artigos exaltando as supostas qualidades libertárias sociais de uma musiquinha que narra, essencialmente, putaria e violência. Numa viagem transcendental ideológica, se fosse a juventude de classe média alta que tivesse inventado esta "cultura", seria apontada como um sintoma claro da sua degradação moral, de sua submissão ao capitalismo selvagem que transforma gente em mercadoria e, sabe-se lá como, de exclusão das camadas inferiores da população. Como é o povão (e, agora, o "mundo descolado") que canta pérolas como "Estrupra, estrupra" (é assim mesmo, não me corrijam) e "Quem que caguetou?", então está tudo certo. E a mulherada (sociólogas da USP inclusas) que acredita nestas bobagens de pós-feminismo de pobre tem mais é que receber um carimbo de "tonta" na testa, por não perceber que está correspondendo aos esterótipos mais machistas existentes enquanto acredita liderar a liberação sexual do século XXI. Parecem-se com as leitoras de revistas femininas, estas publicações que exigem que a mulher seja excelente mãe, excelente amante, profissional exemplar, gente fina, gostosa e esbelta. O engano muda de esfera, mas é rigorosamente o mesmo.
O grande legado do Brasil para a posteridade talvez seja este mesmo: o sexo brega. A sensualidade destrambelhada da Carla Perez, a boca suja do funk carioca, as pornochancadas canastronas dos anos 70 e 80. Somos orgulhosos de nossa relação gozosa (eita!) com a sensualidade, mas somos incompetentes até na hora de transformar isso em alguma referência cultural que preste.
E para finalizar: preconceito meu o escambau. Não me interessa se o sujeito é preto, branco, rico ou pobre. Faz música ruim e ponto final.
Já aviso sobre meu gosto musical: não passa de uma imensa confusão. A primeira coisa a qual presto atenção quando ouço uma música é a sua letra; não tenho conhecimento técnico algum para afirmar se uma melodia é inovadora, se a harmonia é eficiente. Talvez culpa de minha formação literária em formação, o fato é que, numa primeira impressão, pouco me interessam as qualidades estritamente musicais das canções, se a letra não me disser coisa alguma, mando a composição para a lata de lixo da memória - sem dó nem piedade. Por isso afirmo o que poucos querem admitir: o funk carioca é uma porcaria maior do que muitas que já ouvimos por aí.
Que se danem os antropólogos e sociólogos que escrevem artigos exaltando as supostas qualidades libertárias sociais de uma musiquinha que narra, essencialmente, putaria e violência. Numa viagem transcendental ideológica, se fosse a juventude de classe média alta que tivesse inventado esta "cultura", seria apontada como um sintoma claro da sua degradação moral, de sua submissão ao capitalismo selvagem que transforma gente em mercadoria e, sabe-se lá como, de exclusão das camadas inferiores da população. Como é o povão (e, agora, o "mundo descolado") que canta pérolas como "Estrupra, estrupra" (é assim mesmo, não me corrijam) e "Quem que caguetou?", então está tudo certo. E a mulherada (sociólogas da USP inclusas) que acredita nestas bobagens de pós-feminismo de pobre tem mais é que receber um carimbo de "tonta" na testa, por não perceber que está correspondendo aos esterótipos mais machistas existentes enquanto acredita liderar a liberação sexual do século XXI. Parecem-se com as leitoras de revistas femininas, estas publicações que exigem que a mulher seja excelente mãe, excelente amante, profissional exemplar, gente fina, gostosa e esbelta. O engano muda de esfera, mas é rigorosamente o mesmo.
O grande legado do Brasil para a posteridade talvez seja este mesmo: o sexo brega. A sensualidade destrambelhada da Carla Perez, a boca suja do funk carioca, as pornochancadas canastronas dos anos 70 e 80. Somos orgulhosos de nossa relação gozosa (eita!) com a sensualidade, mas somos incompetentes até na hora de transformar isso em alguma referência cultural que preste.
E para finalizar: preconceito meu o escambau. Não me interessa se o sujeito é preto, branco, rico ou pobre. Faz música ruim e ponto final.
3 de março de 2005
Abaixo o Tsunami!
Sim, eu sei que o Homem-Chavão chegou antes, mas vale o registro e o chamado para a mobilização: desde já, posiciono-me contra o uso da palavra tsunami para retratar eventos de grande magnitude! Deus queira que a insistência com que o termo foi usado na mídia consiga instigar o Houaiss a banir o dito cujo da sua lista.
Sim, eu sei que o Homem-Chavão chegou antes, mas vale o registro e o chamado para a mobilização: desde já, posiciono-me contra o uso da palavra tsunami para retratar eventos de grande magnitude! Deus queira que a insistência com que o termo foi usado na mídia consiga instigar o Houaiss a banir o dito cujo da sua lista.
26 de fevereiro de 2005
Minhas tosqueiras literárias - I
Como não tenho glórias literárias para ostentar, não tenho vergonha alguma de comentar as maiores bobagens que já escrevi. Fato certo: todo escritor (e pretendente) sabe muito bem as asneiras que mandou para o papel. A maioria engaveta os trecos e acaba esquecendo-os; invariavelmente os ditos cujos aparecem milagrosamente alguns anos após os sujeitos partirem desta para outra. Comigo a história será diferente: salvo engano, minhas piores bobagens estão irremediavelmente perdidas. Isto, claro, na hipótese de que eu venha mesmo a publicar algo que justifique a visita póstuma aos meus alfarrábios.
Pois bem, minha primeira tosqueira literária realmente tosca, escrita aos meros 11 anos, foi um romance de ficção científica. Por favor, continue lendo, é isso mesmo. Nada tenho contra a FC (como os brasileiros carinhosamente chamam o gênero; é a Sci-Fi cabocla), mas alguns de seus clichês me parecem incrivelmente irritantes – embora, é verdade, estão cada vez mais raros. Cientistas alucinados, mocinhos charmosos e a filha gostosona do cientista apaixonada pelo rapaz que a salva de ser devorada pelo monstrengo ou pelo nanoburaco negro fazem parte do repertório de livros e filmes dos anos 30 a 60 do século passado. Curiosamente, estes fantasmas vieram assombrar meu livro de forma sutil.
O Oposto narrava a tentativa de invasão de outro planeta pelos terráqueos. Que premissa inteligente, não? Como eu não fui indicado ao prêmio Hugo com tal demonstração de criatividade, meu Deus? Talvez pelo fato de este protoromance jamais ter sido concluído (felizmente) e muito menos publicado. Havia, se me lembro bem, três personagens: um cara (o mocinho), a ex-namorada (a gostosona) e o alienígena que sabia de tudo e era perseguido pelo "governo", batizado com o ridículo nome de Tosk. Assim mesmo, com "k" no final, só para soar diferente. Não havia cientista maluco, mas o "governo" era um substituto à altura - Arquivo X que o diga. Confesso não lembrar muita coisa, mas provavelmente, era um daqueles modelitos de governo supranacionais, uma ONU inchada e metida a besta.
Não tenho nenhuma grande recordação desta joça, mas certamente foi um bom exercício para um moleque que, pouco tempo depois, descobriria autores mais interessantes e temas mais curiosos.
Em tempo: antes que venham me xingar de preconceito, sim, eu leio FC, dentre zilhões de outras coisas. Gosto de Orson Scott Card, Isaac Asimov, Arthur Clarke, Robert Heinlein, Philip K. Dick, Stanislaw Lem, Kurt Vonnegut, William Gibson e outros nomes que aprendi a ler nas páginas da finada edição brasileira da Isaac Asimov Magazine. Confesso ter pouca paciência com as séries longas e que só interessam aos nerds de último grau – ou o escritor tem algo de genuíno e inquietante a me dizer ou adeus, de porcarias como O Oposto o universo já está saturado, como já dizia a Lei de Sturgeon.
E não se esqueça, caro leitor! A série Minhas Tosqueiras Literárias voltará a qualquer momento, com novas e surpreendentes revelações sobre o passado literário sórdido deste blogueiro.
Como não tenho glórias literárias para ostentar, não tenho vergonha alguma de comentar as maiores bobagens que já escrevi. Fato certo: todo escritor (e pretendente) sabe muito bem as asneiras que mandou para o papel. A maioria engaveta os trecos e acaba esquecendo-os; invariavelmente os ditos cujos aparecem milagrosamente alguns anos após os sujeitos partirem desta para outra. Comigo a história será diferente: salvo engano, minhas piores bobagens estão irremediavelmente perdidas. Isto, claro, na hipótese de que eu venha mesmo a publicar algo que justifique a visita póstuma aos meus alfarrábios.
Pois bem, minha primeira tosqueira literária realmente tosca, escrita aos meros 11 anos, foi um romance de ficção científica. Por favor, continue lendo, é isso mesmo. Nada tenho contra a FC (como os brasileiros carinhosamente chamam o gênero; é a Sci-Fi cabocla), mas alguns de seus clichês me parecem incrivelmente irritantes – embora, é verdade, estão cada vez mais raros. Cientistas alucinados, mocinhos charmosos e a filha gostosona do cientista apaixonada pelo rapaz que a salva de ser devorada pelo monstrengo ou pelo nanoburaco negro fazem parte do repertório de livros e filmes dos anos 30 a 60 do século passado. Curiosamente, estes fantasmas vieram assombrar meu livro de forma sutil.
O Oposto narrava a tentativa de invasão de outro planeta pelos terráqueos. Que premissa inteligente, não? Como eu não fui indicado ao prêmio Hugo com tal demonstração de criatividade, meu Deus? Talvez pelo fato de este protoromance jamais ter sido concluído (felizmente) e muito menos publicado. Havia, se me lembro bem, três personagens: um cara (o mocinho), a ex-namorada (a gostosona) e o alienígena que sabia de tudo e era perseguido pelo "governo", batizado com o ridículo nome de Tosk. Assim mesmo, com "k" no final, só para soar diferente. Não havia cientista maluco, mas o "governo" era um substituto à altura - Arquivo X que o diga. Confesso não lembrar muita coisa, mas provavelmente, era um daqueles modelitos de governo supranacionais, uma ONU inchada e metida a besta.
Não tenho nenhuma grande recordação desta joça, mas certamente foi um bom exercício para um moleque que, pouco tempo depois, descobriria autores mais interessantes e temas mais curiosos.
Em tempo: antes que venham me xingar de preconceito, sim, eu leio FC, dentre zilhões de outras coisas. Gosto de Orson Scott Card, Isaac Asimov, Arthur Clarke, Robert Heinlein, Philip K. Dick, Stanislaw Lem, Kurt Vonnegut, William Gibson e outros nomes que aprendi a ler nas páginas da finada edição brasileira da Isaac Asimov Magazine. Confesso ter pouca paciência com as séries longas e que só interessam aos nerds de último grau – ou o escritor tem algo de genuíno e inquietante a me dizer ou adeus, de porcarias como O Oposto o universo já está saturado, como já dizia a Lei de Sturgeon.
E não se esqueça, caro leitor! A série Minhas Tosqueiras Literárias voltará a qualquer momento, com novas e surpreendentes revelações sobre o passado literário sórdido deste blogueiro.
18 de janeiro de 2005
Will Eisner
Silenciosamente, a maioria das pessoas que entende de quadrinhos no Brasil recebeu a notícia num e-mail seco, num telefonema curto: Will Eisner morreu.
Lembro-me da impressionante desenvoltura com que ele conversou com centenas de garotos (alguns deles já adultos, não necessariamente eu) quando esteve aqui pela última vez, em 2001. A primeira coisa que ele disse eu não esqueci: pensava que Belo Horizonte fosse uma pacata cidade universitária e acabou encontrando uma metrópole. Ciceroneado pelo amigo Ziraldo, respondeu a um monte de perguntas, inclusive uma simplesmente impagável:
- Sr. Eisner, antes eu gostava de quadrinhos de super-heróis, mas ultimamente todos me parecem chatos e sem graça. O que mudou no mundo dos quadrinhos nos últimos anos?
Calmamente ele respondeu da forma mais simples e incisiva possível:
- Não, meu amigo, você é que cresceu.
Eisner era descendente de judeus, viveu na Nova York do início do século XX (exatamente enquanto Henry Ford distribuía cópias da fraude anti-semita Os Protocolos dos Sábios do Sião, que seriam objeto de uma das últimas obras de Eisner, disposto a acabar de vez com a estupidez deste livro) e suas obras incorporam elementos autobiográficos elevados a estatura da universalidade. Observador agudo dos homens, tinha pelos seus personagens um carinho incrível, mesmo que os metesse nas situações mais cruéis. Dizia que sua grande escola foram os clássicos da literatura, uma pequena verdade esquecida por quase todo escritor que deseja ser alguma coisa na vida e sai querendo ser "moderno". E que isso não significa acomodação, pelo contrário. O conhecimento de literatura e quadrinhos permitiu que Eisner revolucionasse o gênero, incorporando elementos cinematográficos e gráficos comparáveis aos que Welles usaria em Cidadão Kane, exercendo uma influência na arte seqüencial (termo cunhado pelo próprio) comparável a do japonês Osamu Tezuka. Em resumo: Eisner definiu a linguagem dos quadrinhos modernos.
Criou o conceito de graphic novel, num misto de genialidade comercial (algo que nunca lhe faltou, no início da sua carreira chegou a assinar com cinco pseudônimos diferentes para cinco editoras diversas) e amor pelos quadrinhos. Sua obra Um Contrato com Deus, é uma narrativa que passeia pela vida de dezenas de pessoas comuns num prédio de Nova York e é considerada sua obra-prima. Se você ainda não conhece Eisner e precisa apenas de uma obra para entender qual a sua importância, então fique com esta.
Silenciosamente, a maioria das pessoas que entende de quadrinhos no Brasil recebeu a notícia num e-mail seco, num telefonema curto: Will Eisner morreu.
Lembro-me da impressionante desenvoltura com que ele conversou com centenas de garotos (alguns deles já adultos, não necessariamente eu) quando esteve aqui pela última vez, em 2001. A primeira coisa que ele disse eu não esqueci: pensava que Belo Horizonte fosse uma pacata cidade universitária e acabou encontrando uma metrópole. Ciceroneado pelo amigo Ziraldo, respondeu a um monte de perguntas, inclusive uma simplesmente impagável:
- Sr. Eisner, antes eu gostava de quadrinhos de super-heróis, mas ultimamente todos me parecem chatos e sem graça. O que mudou no mundo dos quadrinhos nos últimos anos?
Calmamente ele respondeu da forma mais simples e incisiva possível:
- Não, meu amigo, você é que cresceu.
Eisner era descendente de judeus, viveu na Nova York do início do século XX (exatamente enquanto Henry Ford distribuía cópias da fraude anti-semita Os Protocolos dos Sábios do Sião, que seriam objeto de uma das últimas obras de Eisner, disposto a acabar de vez com a estupidez deste livro) e suas obras incorporam elementos autobiográficos elevados a estatura da universalidade. Observador agudo dos homens, tinha pelos seus personagens um carinho incrível, mesmo que os metesse nas situações mais cruéis. Dizia que sua grande escola foram os clássicos da literatura, uma pequena verdade esquecida por quase todo escritor que deseja ser alguma coisa na vida e sai querendo ser "moderno". E que isso não significa acomodação, pelo contrário. O conhecimento de literatura e quadrinhos permitiu que Eisner revolucionasse o gênero, incorporando elementos cinematográficos e gráficos comparáveis aos que Welles usaria em Cidadão Kane, exercendo uma influência na arte seqüencial (termo cunhado pelo próprio) comparável a do japonês Osamu Tezuka. Em resumo: Eisner definiu a linguagem dos quadrinhos modernos.
Criou o conceito de graphic novel, num misto de genialidade comercial (algo que nunca lhe faltou, no início da sua carreira chegou a assinar com cinco pseudônimos diferentes para cinco editoras diversas) e amor pelos quadrinhos. Sua obra Um Contrato com Deus, é uma narrativa que passeia pela vida de dezenas de pessoas comuns num prédio de Nova York e é considerada sua obra-prima. Se você ainda não conhece Eisner e precisa apenas de uma obra para entender qual a sua importância, então fique com esta.
16 de janeiro de 2005
Personagens a procura de um roteiro
Sim, eu estudo roteiros por conta própria. Ser roteirista deve ser ótimo - se o filme for uma droga, culpam o diretor, os atores, o assistente de iluminação de externas; raramente lembram que a principal razão para qualquer filme ser a porcaria que é está nas páginas que o roteirista cometeu. A não ser os críticos de cinema, é claro, mas quem os lê além dos aspirantes a roteirista?
E um dia vou participar daquele concurso do atual Ministério da Cultura cuja primeira edição pretendia "incentivar a formação de novos profissionais de roteiro" e que fizessem trabalhos que promovessem os "valores da cultura brasileira". Estou pouco me lixando para a "promoção de valores da cultura brasileira", seja lá o que isso for. Meu negócio é a universalidade, palavrinha metida que a genialidade dos nossos intelectuais equivalem a elitismo de burguesinho. Bom, de qualquer forma, acredito que eu não poderia mesmo concorrer com estes novíssimos nomes vencedores do primeiro concurso: Jorge Furtado, André Klotzel, Djalma Limongi Batista e um
professor de roteiro da USP.
É digno de um filme, não?
Sim, eu estudo roteiros por conta própria. Ser roteirista deve ser ótimo - se o filme for uma droga, culpam o diretor, os atores, o assistente de iluminação de externas; raramente lembram que a principal razão para qualquer filme ser a porcaria que é está nas páginas que o roteirista cometeu. A não ser os críticos de cinema, é claro, mas quem os lê além dos aspirantes a roteirista?
E um dia vou participar daquele concurso do atual Ministério da Cultura cuja primeira edição pretendia "incentivar a formação de novos profissionais de roteiro" e que fizessem trabalhos que promovessem os "valores da cultura brasileira". Estou pouco me lixando para a "promoção de valores da cultura brasileira", seja lá o que isso for. Meu negócio é a universalidade, palavrinha metida que a genialidade dos nossos intelectuais equivalem a elitismo de burguesinho. Bom, de qualquer forma, acredito que eu não poderia mesmo concorrer com estes novíssimos nomes vencedores do primeiro concurso: Jorge Furtado, André Klotzel, Djalma Limongi Batista e um
professor de roteiro da USP.
É digno de um filme, não?
5 de janeiro de 2005
A Morte e a morte de Anacrônicas
Anos atrás, quando meu acesso a internet era discado e sofria com as constantes quedas de conexão que meu provedor de acesso me entregava como presentes muito mal embalados, criei um site: O Anacrônicas. Antes de pedir desculpas pelo nome óbvio e um tanto ridículo, digo que gosto dele. Hospedado no hpg, quando o hpg ainda não havia decidido fechar as portas para os não assinantes do iG, teve lá seus tempos de glória. Glórias pequenas, e-mails de amigos e desconhecidos elogiando ou xingando sem nenhum pudor o autor das croniquinhas que ainda habitam aquele sítio. Mas, ainda assim, glórias, por mais infímas que sejam, alimentam nossos egos sempre hipertrofiados, mesmo os dos depressivos.
Por lá confessei o quanto sou ruim do pé, elogiei o episódio dos Simpsons que tirava um sarro do Brasil (um momento de diogomainardismo), xinguei o Big Brother e o Casa dos Artistas, defendi o Papai Noel, fiz uma previsão atrasada, assumi o desejo de ser conhecido ciberneticamente e terminei tudo avacalhando um pouco o ano novo. Nada mal para um site que não chegou sequer a 6.000 acessos em toda a sua existência, mas acabou sendo notado por algumas pessoas cuja opinião sempre recebo com gratidão e cuidado.
Desde o ano passado, o Anacrônicas não recebe atualização alguma e nem a idéia de transformá-lo num portal de crônicas de autores diversos conseguiu decolar. É duro admitir o fracasso, mas o façamos com algum estilo, ao menos. E alguma notícia melhor, claro, nada mais adequado para um ano novo que mal se inicia com notícias (como sempre, como sempre...) velhas.
Por isso, aguarde a ressureição do Anacrônicas. Desta vez vai. Mas não para já.
E tenho dito.
(Ah, agora todo site no hpg abre a página principal do iG... Não se assuste, não é minha culpa.)
Anos atrás, quando meu acesso a internet era discado e sofria com as constantes quedas de conexão que meu provedor de acesso me entregava como presentes muito mal embalados, criei um site: O Anacrônicas. Antes de pedir desculpas pelo nome óbvio e um tanto ridículo, digo que gosto dele. Hospedado no hpg, quando o hpg ainda não havia decidido fechar as portas para os não assinantes do iG, teve lá seus tempos de glória. Glórias pequenas, e-mails de amigos e desconhecidos elogiando ou xingando sem nenhum pudor o autor das croniquinhas que ainda habitam aquele sítio. Mas, ainda assim, glórias, por mais infímas que sejam, alimentam nossos egos sempre hipertrofiados, mesmo os dos depressivos.
Por lá confessei o quanto sou ruim do pé, elogiei o episódio dos Simpsons que tirava um sarro do Brasil (um momento de diogomainardismo), xinguei o Big Brother e o Casa dos Artistas, defendi o Papai Noel, fiz uma previsão atrasada, assumi o desejo de ser conhecido ciberneticamente e terminei tudo avacalhando um pouco o ano novo. Nada mal para um site que não chegou sequer a 6.000 acessos em toda a sua existência, mas acabou sendo notado por algumas pessoas cuja opinião sempre recebo com gratidão e cuidado.
Desde o ano passado, o Anacrônicas não recebe atualização alguma e nem a idéia de transformá-lo num portal de crônicas de autores diversos conseguiu decolar. É duro admitir o fracasso, mas o façamos com algum estilo, ao menos. E alguma notícia melhor, claro, nada mais adequado para um ano novo que mal se inicia com notícias (como sempre, como sempre...) velhas.
Por isso, aguarde a ressureição do Anacrônicas. Desta vez vai. Mas não para já.
E tenho dito.
(Ah, agora todo site no hpg abre a página principal do iG... Não se assuste, não é minha culpa.)
1 de dezembro de 2004
Cerca a Prova de Coelhos
Admito que a Austrália é um dos países que gostaria de visitar. É uma gigantesca ilha deserta cercada de gente e cangurus por todos os lados. Como todo rincão colonizado, tem suas mágoas e mazelas e é curiosa vê-las nas telas por um diretor hollywodiano como Phililp Noyce (Perigo Real e Imediato, O Americano Tranqüilo). Seu filme mais recente, Geração Roubada (cujo título original está em cima - se você assistir vai entender) narra a fuga de três meninas mestiças (aborígenes & brancos) de um "campo de reeducação" australiano que andaram mais de 1500 km até chegar a sua terra. Mais interessante do que esta historinha é o seu pano de fundo: o governo australiano, até 1970 (!) acreditava piamente na reeducação dos filhos de mestiços para que adotassem a nossa cultura ocidental. Campo de reeducação é a mesma lavagem cerebral de sempre, seja na terra dos coalas, na China ou na Coréia do Norte, e eu nem vou entrar em detalhes aqui sobre a gigantesca bobagem que é um programa estatal de aculturamento de um povo - francamente, preciso?
Noyce afirmou que este filme foi sua libertação do mundinho de Hollywood. Em termos, claro. Seu filme ainda revela alguns ranços difíceis de se engloir. Quando (atenção, vou relevar o final do filme, se você ainda não descobriu qual é, releia este post e presta mais atenção porque não fará a menor diferença!) a mãe se reencontra com sua filhe, há câmera lenta, claro, como diria a cartilha da manipulação emocional da platéia do sr. Spielberg. Mas é só. De resto, os planos são escolhidos com cuidado, a música é boa, há uma intenção de se economizar clichês - o que acaba funcionando na maior parte do tempo.
E pronto, disse tudo o que deveria. Já está disponível em vídeo, vai lá, procura, assiste e depois me diz o que achou - ou não.
Admito que a Austrália é um dos países que gostaria de visitar. É uma gigantesca ilha deserta cercada de gente e cangurus por todos os lados. Como todo rincão colonizado, tem suas mágoas e mazelas e é curiosa vê-las nas telas por um diretor hollywodiano como Phililp Noyce (Perigo Real e Imediato, O Americano Tranqüilo). Seu filme mais recente, Geração Roubada (cujo título original está em cima - se você assistir vai entender) narra a fuga de três meninas mestiças (aborígenes & brancos) de um "campo de reeducação" australiano que andaram mais de 1500 km até chegar a sua terra. Mais interessante do que esta historinha é o seu pano de fundo: o governo australiano, até 1970 (!) acreditava piamente na reeducação dos filhos de mestiços para que adotassem a nossa cultura ocidental. Campo de reeducação é a mesma lavagem cerebral de sempre, seja na terra dos coalas, na China ou na Coréia do Norte, e eu nem vou entrar em detalhes aqui sobre a gigantesca bobagem que é um programa estatal de aculturamento de um povo - francamente, preciso?
Noyce afirmou que este filme foi sua libertação do mundinho de Hollywood. Em termos, claro. Seu filme ainda revela alguns ranços difíceis de se engloir. Quando (atenção, vou relevar o final do filme, se você ainda não descobriu qual é, releia este post e presta mais atenção porque não fará a menor diferença!) a mãe se reencontra com sua filhe, há câmera lenta, claro, como diria a cartilha da manipulação emocional da platéia do sr. Spielberg. Mas é só. De resto, os planos são escolhidos com cuidado, a música é boa, há uma intenção de se economizar clichês - o que acaba funcionando na maior parte do tempo.
E pronto, disse tudo o que deveria. Já está disponível em vídeo, vai lá, procura, assiste e depois me diz o que achou - ou não.
24 de novembro de 2004
Não ao Amor
Os três estavam reunidos para uma decisão importante, vital para a imagem da recém-nascida república. Era um verão especialmente quente e todos transpiravam córregos debaixo de fraques negros, cartolas pretas e outras firulas indispensáveis aos homens de bem desta terra, sentados ao redor de uma mesa na frente de uma respeitável casa de respeitáveis bebidas à beira-mar. Observaram a bela dama que passava no calçadão de pedra, os olhos baixos, a cabeça alta, ligeiramente esnobe e delicada, deixando intencionalmente a mostra dois centímetros de pescoço que deveria ser, imaginaram, um jardim de delícias nada sagradas. Apesar dela, eles retomam logo a discussão:
- Ora, o que me dizes? – pergunta o primeiro.
- Somos positivistas, homem. – responde o segundo.
- E este país há de se tornar, à luz da mais moderna filosofia positivista, a estrela do século XX – afirma, categórico, o terceiro. E daqui para frente, leia-se o diálogo assim, porque há que se ter paciência do escritor forçado a explicitar quem diz o quê: o primeiro, o segundo e o terceiro.
- Mas, amigos, "amor"? Justo "amor"?
- O que tens contra, homem?
- Lembra-te: Nossa vida no teu seio, mais amores.
- Certo, mas, não sei como me expressar. Não me agrada a composição. – e olha de novo o papel rabiscado na mesa. Um quadrado, um losango achatado, uma bola e um faixa no meio. Desconsideremos a falta de habilidade com as tintas e os pincéis, eis um esboço de bandeira.
- Sim, "O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim"!
- O lema dos positivistas. E viva Comte!
- "Amor" ficou baranga.
Silêncio.
- Baranga?
- Do que falas, homem?
- Baranga, bobo, besta, vulgar, kitsch, brega. São estas as palavras que nossos herdeiros usarão para falar de nossa flâmula se os senhores enfiarem esta palavrinha aí: Amor.
Bis para o silêncio.
- É o que achas?
- Sim, diga-nos se é o que achas de verdade, homem.
- Olha bem, tira este vocábulo. Ficamos apenas com "Ordem e Progresso". Imponente, não, senhores?
Olhares.
- Talvez o amigo tenha alguma razão.
- Como, homem de Deus, ousa usurpar a integridade de nosso lema?
- Em nome do bom-gosto. Apenas isso.
- É uma mentira.
- O quê?
- Eu sei.
- Este negócio de "Ordem e Progresso" nunca vai pegar aqui. Por isso achava que "Amor" seria mais a nossa cara.
- Veja como falas, homem. Nunca ouvi tais palavras.
- Pois é, eu pensei o mesmo. Mas nossa missão não é inventar um país épico, grandioso, admirável?
- Sim.
- Sem dúvidas.
- Então, ao amor as batatas. De acordo?
Todos concordaram e mandaram bordar a bandeira daquele jeito mesmo, simples e megalomaníaca.
Aí aparece o Jards Macalé e ressuscita a pendenga da palavra esquecida. Francamente, ao amor, as batatas.
Os três estavam reunidos para uma decisão importante, vital para a imagem da recém-nascida república. Era um verão especialmente quente e todos transpiravam córregos debaixo de fraques negros, cartolas pretas e outras firulas indispensáveis aos homens de bem desta terra, sentados ao redor de uma mesa na frente de uma respeitável casa de respeitáveis bebidas à beira-mar. Observaram a bela dama que passava no calçadão de pedra, os olhos baixos, a cabeça alta, ligeiramente esnobe e delicada, deixando intencionalmente a mostra dois centímetros de pescoço que deveria ser, imaginaram, um jardim de delícias nada sagradas. Apesar dela, eles retomam logo a discussão:
- Ora, o que me dizes? – pergunta o primeiro.
- Somos positivistas, homem. – responde o segundo.
- E este país há de se tornar, à luz da mais moderna filosofia positivista, a estrela do século XX – afirma, categórico, o terceiro. E daqui para frente, leia-se o diálogo assim, porque há que se ter paciência do escritor forçado a explicitar quem diz o quê: o primeiro, o segundo e o terceiro.
- Mas, amigos, "amor"? Justo "amor"?
- O que tens contra, homem?
- Lembra-te: Nossa vida no teu seio, mais amores.
- Certo, mas, não sei como me expressar. Não me agrada a composição. – e olha de novo o papel rabiscado na mesa. Um quadrado, um losango achatado, uma bola e um faixa no meio. Desconsideremos a falta de habilidade com as tintas e os pincéis, eis um esboço de bandeira.
- Sim, "O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim"!
- O lema dos positivistas. E viva Comte!
- "Amor" ficou baranga.
Silêncio.
- Baranga?
- Do que falas, homem?
- Baranga, bobo, besta, vulgar, kitsch, brega. São estas as palavras que nossos herdeiros usarão para falar de nossa flâmula se os senhores enfiarem esta palavrinha aí: Amor.
Bis para o silêncio.
- É o que achas?
- Sim, diga-nos se é o que achas de verdade, homem.
- Olha bem, tira este vocábulo. Ficamos apenas com "Ordem e Progresso". Imponente, não, senhores?
Olhares.
- Talvez o amigo tenha alguma razão.
- Como, homem de Deus, ousa usurpar a integridade de nosso lema?
- Em nome do bom-gosto. Apenas isso.
- É uma mentira.
- O quê?
- Eu sei.
- Este negócio de "Ordem e Progresso" nunca vai pegar aqui. Por isso achava que "Amor" seria mais a nossa cara.
- Veja como falas, homem. Nunca ouvi tais palavras.
- Pois é, eu pensei o mesmo. Mas nossa missão não é inventar um país épico, grandioso, admirável?
- Sim.
- Sem dúvidas.
- Então, ao amor as batatas. De acordo?
Todos concordaram e mandaram bordar a bandeira daquele jeito mesmo, simples e megalomaníaca.
Aí aparece o Jards Macalé e ressuscita a pendenga da palavra esquecida. Francamente, ao amor, as batatas.
Sorry Everyboy, my ass!
Ficou famoso um site mantido por norte-americanos (que me perdoe o frei, mas "estadunidense" é palavrão) em que os bocós que não votaram em Bush pedem desculpas ao mundo pelos manés que votaram no dito cujo. Cada um, ou grupo, posta uma fotinha (sim, eu sei disso) sua segurando um papel escrito algo como "Sorry, world", "Sorry everybody", que é o nome e URL (http://www.sorryeverybody.com) do site. Alguns dos descontentes com a eleição perdida pelo "mocinho" Kerry pretendem até mesmo mudar de país: uma agência canadense com sede na cidade de Vancouver oferece um serviço para facilitar a imigração dos viúvos e viúvas dos democratas. Não que se espere uma migração em massa, claro. E muito menos para o Brasil, já que a única coisa que gringo consegue por estas bandas é ser assaltado em Copacabana.
É difícil aceitar, mas parece que há gente no mundo que acreditava piamente na vitória do cara-de-pastel-assado John Kerry como a salvação final. Parece-lhes que Kerry, uma vez na presidência, chamaria as tropas do Iraque de volta, mandaria os soldados que permanecem na Europa, África, América Latina, Japão, Coréia do Sul e Chupinzinho enfiar os fuzis na mochila e pegar o primeiro avião de volta a terra de paz e harmonia no qual se transformariam os EUA sob seu comando. Democratas e Republicanos representam apenas duas faces da arrogância de qualquer governante; os primeiros parecem bonzinhos, mas têm certeza de que o futuro será glorioso debaixo de suas mãos; já os segundos não se importam com propaganda enganosa e arrombam logo a porta da frente, avisando que quem manda no pardieiro são eles. Pelo jeito, o norte-americano prefere a sinceridade, mesmo que doa – bem diferente de um povinho aqui no sul.
Enfim, os caras escolheram o que quiseram e esta é a vantagem da democracia: dar ao povo o poder de conduzir sua história pelo voto (atenção Homem-Chavão!), o que inclui errar terrivelmente – fato que incomoda sobretudo a estes intelectuais que acreditam ter encontrado a solução dos problemas do mundo numa bandeirinha vermelha e num tacape travestido de mão carinhosa.
Pois eu digo: Sorry everybody, my ass! Vocês aí do norte são a grande referência democrática, goste-se disto ou não; portanto, não me venham pedir desculpas. Se acertaram ou fizeram uma burrada, daqui a alguns anos a gente conversa.
Adendo mal-educado: Sou louco para que os EUA assumam logo que são um império. Falo sério. Chega de nhemnhemnhem, povinho da Casa Branca, sorriam, encham os pulmões e digam logo o que todo mundo já sabe. Pelo menos, haveria uma fenomenal vantagem para nós, botocudos do andar de baixo: toda vez que um sujeito do porte de um Emir Sader ou um Leandro Konder escrever "império", "imperialismo" e outras boças, não terá mais aquela pose, aquela autoridade de guardião da verdade oculta. Já seria um baita alívio.
Ficou famoso um site mantido por norte-americanos (que me perdoe o frei, mas "estadunidense" é palavrão) em que os bocós que não votaram em Bush pedem desculpas ao mundo pelos manés que votaram no dito cujo. Cada um, ou grupo, posta uma fotinha (sim, eu sei disso) sua segurando um papel escrito algo como "Sorry, world", "Sorry everybody", que é o nome e URL (http://www.sorryeverybody.com) do site. Alguns dos descontentes com a eleição perdida pelo "mocinho" Kerry pretendem até mesmo mudar de país: uma agência canadense com sede na cidade de Vancouver oferece um serviço para facilitar a imigração dos viúvos e viúvas dos democratas. Não que se espere uma migração em massa, claro. E muito menos para o Brasil, já que a única coisa que gringo consegue por estas bandas é ser assaltado em Copacabana.
É difícil aceitar, mas parece que há gente no mundo que acreditava piamente na vitória do cara-de-pastel-assado John Kerry como a salvação final. Parece-lhes que Kerry, uma vez na presidência, chamaria as tropas do Iraque de volta, mandaria os soldados que permanecem na Europa, África, América Latina, Japão, Coréia do Sul e Chupinzinho enfiar os fuzis na mochila e pegar o primeiro avião de volta a terra de paz e harmonia no qual se transformariam os EUA sob seu comando. Democratas e Republicanos representam apenas duas faces da arrogância de qualquer governante; os primeiros parecem bonzinhos, mas têm certeza de que o futuro será glorioso debaixo de suas mãos; já os segundos não se importam com propaganda enganosa e arrombam logo a porta da frente, avisando que quem manda no pardieiro são eles. Pelo jeito, o norte-americano prefere a sinceridade, mesmo que doa – bem diferente de um povinho aqui no sul.
Enfim, os caras escolheram o que quiseram e esta é a vantagem da democracia: dar ao povo o poder de conduzir sua história pelo voto (atenção Homem-Chavão!), o que inclui errar terrivelmente – fato que incomoda sobretudo a estes intelectuais que acreditam ter encontrado a solução dos problemas do mundo numa bandeirinha vermelha e num tacape travestido de mão carinhosa.
Pois eu digo: Sorry everybody, my ass! Vocês aí do norte são a grande referência democrática, goste-se disto ou não; portanto, não me venham pedir desculpas. Se acertaram ou fizeram uma burrada, daqui a alguns anos a gente conversa.
Adendo mal-educado: Sou louco para que os EUA assumam logo que são um império. Falo sério. Chega de nhemnhemnhem, povinho da Casa Branca, sorriam, encham os pulmões e digam logo o que todo mundo já sabe. Pelo menos, haveria uma fenomenal vantagem para nós, botocudos do andar de baixo: toda vez que um sujeito do porte de um Emir Sader ou um Leandro Konder escrever "império", "imperialismo" e outras boças, não terá mais aquela pose, aquela autoridade de guardião da verdade oculta. Já seria um baita alívio.
Chega!
Depois de um longo e penoso balanço, muitas decisões complexas, importantes e naturalmente sem sentido devem ser tomadas – e algum pescoço tem de ser oferecido em sacrifício no caso de a vaca dar com as quatro patas no fundo do pântano, claro.
Então, O Anacrônico muda de vez. Agora a coisa é séria. Pelo menos até a próxima decisão importante, inadiável e ridícula.
Depois de um longo e penoso balanço, muitas decisões complexas, importantes e naturalmente sem sentido devem ser tomadas – e algum pescoço tem de ser oferecido em sacrifício no caso de a vaca dar com as quatro patas no fundo do pântano, claro.
Então, O Anacrônico muda de vez. Agora a coisa é séria. Pelo menos até a próxima decisão importante, inadiável e ridícula.
28 de outubro de 2004
Sons do início do milênio
Nada é mais vulgar, bobo e brega do que comentar no seu blog os presentes de aniversário que você recebeu. E é exatamente o que farei agora. Minha namorada me presenteou com o último álbum da maluquete-esquimó-pop-alternativa Björk(a foto ao lado é dela), Medúla.
Certamente, ela (minha namorada) está se perguntando o que eu (ou)vi nesta bagunça de sons aparentemente desconexos e quase livres de instrumentos que não a voz dela (da Björk) e de outros. Também não entendi muito bem a proposta da hobbit esquimó logo de cara, mas não conseguia também tirar as músicas da cabeça logo depois de ouvir Medúla pela primeira vez.
São canções melancólicas, que alternam silêncios preenchidos apenas pela voz frágil e levemente desesperada da cantora com explosões de sons que duram pouco. Quando ela parece declamar a música, você acha que ela está cantando e vice-versa. É belo e um tanto aterrorizante, quase uma ópera pop de tons religiosos escrita por um ateu, se é que deu para entender onde quis chegar. Claro que não, e na verdade, eu não queria explicar nada mesmo senão minha carreira de crítico estará perdida para sempre.
Sim, eu sempre gostei de Björk e sua capacidade de fazer coisas estranhas, belas e cruéis. E, convenhamos, a capa deste álbum é belíssima.
Nada é mais vulgar, bobo e brega do que comentar no seu blog os presentes de aniversário que você recebeu. E é exatamente o que farei agora. Minha namorada me presenteou com o último álbum da maluquete-esquimó-pop-alternativa Björk(a foto ao lado é dela), Medúla.
Certamente, ela (minha namorada) está se perguntando o que eu (ou)vi nesta bagunça de sons aparentemente desconexos e quase livres de instrumentos que não a voz dela (da Björk) e de outros. Também não entendi muito bem a proposta da hobbit esquimó logo de cara, mas não conseguia também tirar as músicas da cabeça logo depois de ouvir Medúla pela primeira vez.
São canções melancólicas, que alternam silêncios preenchidos apenas pela voz frágil e levemente desesperada da cantora com explosões de sons que duram pouco. Quando ela parece declamar a música, você acha que ela está cantando e vice-versa. É belo e um tanto aterrorizante, quase uma ópera pop de tons religiosos escrita por um ateu, se é que deu para entender onde quis chegar. Claro que não, e na verdade, eu não queria explicar nada mesmo senão minha carreira de crítico estará perdida para sempre.
Sim, eu sempre gostei de Björk e sua capacidade de fazer coisas estranhas, belas e cruéis. E, convenhamos, a capa deste álbum é belíssima.
14 de outubro de 2004
CCB
O CCB (Comando de Caça aos Blogs) informa que a temporada ainda não terminou. Depois que o site Imprensa Marrom foi gentilmente arrancado do ar por decisão judicial, Cristiano Dias decidiu subtrair o próprio blog por um tempo para reformulá-lo, logo após receber uma mensagem enigmática e ameaçadora entre os seus comentários. O mais absurdo é que a ação judicial que levou a exclusão do Imprensa Marrom (sim, ele está de volta) baseava-se em um comentário de um internauta sobre uma empresa de recolocação profissional. Lembra-se do caso da Dow Right, que conseguiu a proeza de tumultuar a vida da Você S.A.? Algo parecido, mas com outro protagonista.
Mesmo que o seu blog, como este que vos fala, esteja hospedado num provedor estrangeiro, leia com atenção o Manual de sobrevivência na selva de bits: evitando as ações judiciais contra publicações na Internet, de autoria da advogada e blogueira Cynthia Semíramis. Como disse o Inagaki, é clichê, mas vale a pena repetir: a luta é de todos nós. E, por favor, apesar desta última frase, eu não sou petista, sou internauta.
O CCB (Comando de Caça aos Blogs) informa que a temporada ainda não terminou. Depois que o site Imprensa Marrom foi gentilmente arrancado do ar por decisão judicial, Cristiano Dias decidiu subtrair o próprio blog por um tempo para reformulá-lo, logo após receber uma mensagem enigmática e ameaçadora entre os seus comentários. O mais absurdo é que a ação judicial que levou a exclusão do Imprensa Marrom (sim, ele está de volta) baseava-se em um comentário de um internauta sobre uma empresa de recolocação profissional. Lembra-se do caso da Dow Right, que conseguiu a proeza de tumultuar a vida da Você S.A.? Algo parecido, mas com outro protagonista.
Mesmo que o seu blog, como este que vos fala, esteja hospedado num provedor estrangeiro, leia com atenção o Manual de sobrevivência na selva de bits: evitando as ações judiciais contra publicações na Internet, de autoria da advogada e blogueira Cynthia Semíramis. Como disse o Inagaki, é clichê, mas vale a pena repetir: a luta é de todos nós. E, por favor, apesar desta última frase, eu não sou petista, sou internauta.
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