Cerca a Prova de Coelhos
Admito que a Austrália é um dos países que gostaria de visitar. É uma gigantesca ilha deserta cercada de gente e cangurus por todos os lados. Como todo rincão colonizado, tem suas mágoas e mazelas e é curiosa vê-las nas telas por um diretor hollywodiano como Phililp Noyce (Perigo Real e Imediato, O Americano Tranqüilo). Seu filme mais recente, Geração Roubada (cujo título original está em cima - se você assistir vai entender) narra a fuga de três meninas mestiças (aborígenes & brancos) de um "campo de reeducação" australiano que andaram mais de 1500 km até chegar a sua terra. Mais interessante do que esta historinha é o seu pano de fundo: o governo australiano, até 1970 (!) acreditava piamente na reeducação dos filhos de mestiços para que adotassem a nossa cultura ocidental. Campo de reeducação é a mesma lavagem cerebral de sempre, seja na terra dos coalas, na China ou na Coréia do Norte, e eu nem vou entrar em detalhes aqui sobre a gigantesca bobagem que é um programa estatal de aculturamento de um povo - francamente, preciso?
Noyce afirmou que este filme foi sua libertação do mundinho de Hollywood. Em termos, claro. Seu filme ainda revela alguns ranços difíceis de se engloir. Quando (atenção, vou relevar o final do filme, se você ainda não descobriu qual é, releia este post e presta mais atenção porque não fará a menor diferença!) a mãe se reencontra com sua filhe, há câmera lenta, claro, como diria a cartilha da manipulação emocional da platéia do sr. Spielberg. Mas é só. De resto, os planos são escolhidos com cuidado, a música é boa, há uma intenção de se economizar clichês - o que acaba funcionando na maior parte do tempo.
E pronto, disse tudo o que deveria. Já está disponível em vídeo, vai lá, procura, assiste e depois me diz o que achou - ou não.
1 de dezembro de 2004
24 de novembro de 2004
Não ao Amor
Os três estavam reunidos para uma decisão importante, vital para a imagem da recém-nascida república. Era um verão especialmente quente e todos transpiravam córregos debaixo de fraques negros, cartolas pretas e outras firulas indispensáveis aos homens de bem desta terra, sentados ao redor de uma mesa na frente de uma respeitável casa de respeitáveis bebidas à beira-mar. Observaram a bela dama que passava no calçadão de pedra, os olhos baixos, a cabeça alta, ligeiramente esnobe e delicada, deixando intencionalmente a mostra dois centímetros de pescoço que deveria ser, imaginaram, um jardim de delícias nada sagradas. Apesar dela, eles retomam logo a discussão:
- Ora, o que me dizes? – pergunta o primeiro.
- Somos positivistas, homem. – responde o segundo.
- E este país há de se tornar, à luz da mais moderna filosofia positivista, a estrela do século XX – afirma, categórico, o terceiro. E daqui para frente, leia-se o diálogo assim, porque há que se ter paciência do escritor forçado a explicitar quem diz o quê: o primeiro, o segundo e o terceiro.
- Mas, amigos, "amor"? Justo "amor"?
- O que tens contra, homem?
- Lembra-te: Nossa vida no teu seio, mais amores.
- Certo, mas, não sei como me expressar. Não me agrada a composição. – e olha de novo o papel rabiscado na mesa. Um quadrado, um losango achatado, uma bola e um faixa no meio. Desconsideremos a falta de habilidade com as tintas e os pincéis, eis um esboço de bandeira.
- Sim, "O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim"!
- O lema dos positivistas. E viva Comte!
- "Amor" ficou baranga.
Silêncio.
- Baranga?
- Do que falas, homem?
- Baranga, bobo, besta, vulgar, kitsch, brega. São estas as palavras que nossos herdeiros usarão para falar de nossa flâmula se os senhores enfiarem esta palavrinha aí: Amor.
Bis para o silêncio.
- É o que achas?
- Sim, diga-nos se é o que achas de verdade, homem.
- Olha bem, tira este vocábulo. Ficamos apenas com "Ordem e Progresso". Imponente, não, senhores?
Olhares.
- Talvez o amigo tenha alguma razão.
- Como, homem de Deus, ousa usurpar a integridade de nosso lema?
- Em nome do bom-gosto. Apenas isso.
- É uma mentira.
- O quê?
- Eu sei.
- Este negócio de "Ordem e Progresso" nunca vai pegar aqui. Por isso achava que "Amor" seria mais a nossa cara.
- Veja como falas, homem. Nunca ouvi tais palavras.
- Pois é, eu pensei o mesmo. Mas nossa missão não é inventar um país épico, grandioso, admirável?
- Sim.
- Sem dúvidas.
- Então, ao amor as batatas. De acordo?
Todos concordaram e mandaram bordar a bandeira daquele jeito mesmo, simples e megalomaníaca.
Aí aparece o Jards Macalé e ressuscita a pendenga da palavra esquecida. Francamente, ao amor, as batatas.
Os três estavam reunidos para uma decisão importante, vital para a imagem da recém-nascida república. Era um verão especialmente quente e todos transpiravam córregos debaixo de fraques negros, cartolas pretas e outras firulas indispensáveis aos homens de bem desta terra, sentados ao redor de uma mesa na frente de uma respeitável casa de respeitáveis bebidas à beira-mar. Observaram a bela dama que passava no calçadão de pedra, os olhos baixos, a cabeça alta, ligeiramente esnobe e delicada, deixando intencionalmente a mostra dois centímetros de pescoço que deveria ser, imaginaram, um jardim de delícias nada sagradas. Apesar dela, eles retomam logo a discussão:
- Ora, o que me dizes? – pergunta o primeiro.
- Somos positivistas, homem. – responde o segundo.
- E este país há de se tornar, à luz da mais moderna filosofia positivista, a estrela do século XX – afirma, categórico, o terceiro. E daqui para frente, leia-se o diálogo assim, porque há que se ter paciência do escritor forçado a explicitar quem diz o quê: o primeiro, o segundo e o terceiro.
- Mas, amigos, "amor"? Justo "amor"?
- O que tens contra, homem?
- Lembra-te: Nossa vida no teu seio, mais amores.
- Certo, mas, não sei como me expressar. Não me agrada a composição. – e olha de novo o papel rabiscado na mesa. Um quadrado, um losango achatado, uma bola e um faixa no meio. Desconsideremos a falta de habilidade com as tintas e os pincéis, eis um esboço de bandeira.
- Sim, "O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim"!
- O lema dos positivistas. E viva Comte!
- "Amor" ficou baranga.
Silêncio.
- Baranga?
- Do que falas, homem?
- Baranga, bobo, besta, vulgar, kitsch, brega. São estas as palavras que nossos herdeiros usarão para falar de nossa flâmula se os senhores enfiarem esta palavrinha aí: Amor.
Bis para o silêncio.
- É o que achas?
- Sim, diga-nos se é o que achas de verdade, homem.
- Olha bem, tira este vocábulo. Ficamos apenas com "Ordem e Progresso". Imponente, não, senhores?
Olhares.
- Talvez o amigo tenha alguma razão.
- Como, homem de Deus, ousa usurpar a integridade de nosso lema?
- Em nome do bom-gosto. Apenas isso.
- É uma mentira.
- O quê?
- Eu sei.
- Este negócio de "Ordem e Progresso" nunca vai pegar aqui. Por isso achava que "Amor" seria mais a nossa cara.
- Veja como falas, homem. Nunca ouvi tais palavras.
- Pois é, eu pensei o mesmo. Mas nossa missão não é inventar um país épico, grandioso, admirável?
- Sim.
- Sem dúvidas.
- Então, ao amor as batatas. De acordo?
Todos concordaram e mandaram bordar a bandeira daquele jeito mesmo, simples e megalomaníaca.
Aí aparece o Jards Macalé e ressuscita a pendenga da palavra esquecida. Francamente, ao amor, as batatas.
Sorry Everyboy, my ass!
Ficou famoso um site mantido por norte-americanos (que me perdoe o frei, mas "estadunidense" é palavrão) em que os bocós que não votaram em Bush pedem desculpas ao mundo pelos manés que votaram no dito cujo. Cada um, ou grupo, posta uma fotinha (sim, eu sei disso) sua segurando um papel escrito algo como "Sorry, world", "Sorry everybody", que é o nome e URL (http://www.sorryeverybody.com) do site. Alguns dos descontentes com a eleição perdida pelo "mocinho" Kerry pretendem até mesmo mudar de país: uma agência canadense com sede na cidade de Vancouver oferece um serviço para facilitar a imigração dos viúvos e viúvas dos democratas. Não que se espere uma migração em massa, claro. E muito menos para o Brasil, já que a única coisa que gringo consegue por estas bandas é ser assaltado em Copacabana.
É difícil aceitar, mas parece que há gente no mundo que acreditava piamente na vitória do cara-de-pastel-assado John Kerry como a salvação final. Parece-lhes que Kerry, uma vez na presidência, chamaria as tropas do Iraque de volta, mandaria os soldados que permanecem na Europa, África, América Latina, Japão, Coréia do Sul e Chupinzinho enfiar os fuzis na mochila e pegar o primeiro avião de volta a terra de paz e harmonia no qual se transformariam os EUA sob seu comando. Democratas e Republicanos representam apenas duas faces da arrogância de qualquer governante; os primeiros parecem bonzinhos, mas têm certeza de que o futuro será glorioso debaixo de suas mãos; já os segundos não se importam com propaganda enganosa e arrombam logo a porta da frente, avisando que quem manda no pardieiro são eles. Pelo jeito, o norte-americano prefere a sinceridade, mesmo que doa – bem diferente de um povinho aqui no sul.
Enfim, os caras escolheram o que quiseram e esta é a vantagem da democracia: dar ao povo o poder de conduzir sua história pelo voto (atenção Homem-Chavão!), o que inclui errar terrivelmente – fato que incomoda sobretudo a estes intelectuais que acreditam ter encontrado a solução dos problemas do mundo numa bandeirinha vermelha e num tacape travestido de mão carinhosa.
Pois eu digo: Sorry everybody, my ass! Vocês aí do norte são a grande referência democrática, goste-se disto ou não; portanto, não me venham pedir desculpas. Se acertaram ou fizeram uma burrada, daqui a alguns anos a gente conversa.
Adendo mal-educado: Sou louco para que os EUA assumam logo que são um império. Falo sério. Chega de nhemnhemnhem, povinho da Casa Branca, sorriam, encham os pulmões e digam logo o que todo mundo já sabe. Pelo menos, haveria uma fenomenal vantagem para nós, botocudos do andar de baixo: toda vez que um sujeito do porte de um Emir Sader ou um Leandro Konder escrever "império", "imperialismo" e outras boças, não terá mais aquela pose, aquela autoridade de guardião da verdade oculta. Já seria um baita alívio.
Ficou famoso um site mantido por norte-americanos (que me perdoe o frei, mas "estadunidense" é palavrão) em que os bocós que não votaram em Bush pedem desculpas ao mundo pelos manés que votaram no dito cujo. Cada um, ou grupo, posta uma fotinha (sim, eu sei disso) sua segurando um papel escrito algo como "Sorry, world", "Sorry everybody", que é o nome e URL (http://www.sorryeverybody.com) do site. Alguns dos descontentes com a eleição perdida pelo "mocinho" Kerry pretendem até mesmo mudar de país: uma agência canadense com sede na cidade de Vancouver oferece um serviço para facilitar a imigração dos viúvos e viúvas dos democratas. Não que se espere uma migração em massa, claro. E muito menos para o Brasil, já que a única coisa que gringo consegue por estas bandas é ser assaltado em Copacabana.
É difícil aceitar, mas parece que há gente no mundo que acreditava piamente na vitória do cara-de-pastel-assado John Kerry como a salvação final. Parece-lhes que Kerry, uma vez na presidência, chamaria as tropas do Iraque de volta, mandaria os soldados que permanecem na Europa, África, América Latina, Japão, Coréia do Sul e Chupinzinho enfiar os fuzis na mochila e pegar o primeiro avião de volta a terra de paz e harmonia no qual se transformariam os EUA sob seu comando. Democratas e Republicanos representam apenas duas faces da arrogância de qualquer governante; os primeiros parecem bonzinhos, mas têm certeza de que o futuro será glorioso debaixo de suas mãos; já os segundos não se importam com propaganda enganosa e arrombam logo a porta da frente, avisando que quem manda no pardieiro são eles. Pelo jeito, o norte-americano prefere a sinceridade, mesmo que doa – bem diferente de um povinho aqui no sul.
Enfim, os caras escolheram o que quiseram e esta é a vantagem da democracia: dar ao povo o poder de conduzir sua história pelo voto (atenção Homem-Chavão!), o que inclui errar terrivelmente – fato que incomoda sobretudo a estes intelectuais que acreditam ter encontrado a solução dos problemas do mundo numa bandeirinha vermelha e num tacape travestido de mão carinhosa.
Pois eu digo: Sorry everybody, my ass! Vocês aí do norte são a grande referência democrática, goste-se disto ou não; portanto, não me venham pedir desculpas. Se acertaram ou fizeram uma burrada, daqui a alguns anos a gente conversa.
Adendo mal-educado: Sou louco para que os EUA assumam logo que são um império. Falo sério. Chega de nhemnhemnhem, povinho da Casa Branca, sorriam, encham os pulmões e digam logo o que todo mundo já sabe. Pelo menos, haveria uma fenomenal vantagem para nós, botocudos do andar de baixo: toda vez que um sujeito do porte de um Emir Sader ou um Leandro Konder escrever "império", "imperialismo" e outras boças, não terá mais aquela pose, aquela autoridade de guardião da verdade oculta. Já seria um baita alívio.
Chega!
Depois de um longo e penoso balanço, muitas decisões complexas, importantes e naturalmente sem sentido devem ser tomadas – e algum pescoço tem de ser oferecido em sacrifício no caso de a vaca dar com as quatro patas no fundo do pântano, claro.
Então, O Anacrônico muda de vez. Agora a coisa é séria. Pelo menos até a próxima decisão importante, inadiável e ridícula.
Depois de um longo e penoso balanço, muitas decisões complexas, importantes e naturalmente sem sentido devem ser tomadas – e algum pescoço tem de ser oferecido em sacrifício no caso de a vaca dar com as quatro patas no fundo do pântano, claro.
Então, O Anacrônico muda de vez. Agora a coisa é séria. Pelo menos até a próxima decisão importante, inadiável e ridícula.
28 de outubro de 2004
Sons do início do milênio
Nada é mais vulgar, bobo e brega do que comentar no seu blog os presentes de aniversário que você recebeu. E é exatamente o que farei agora. Minha namorada me presenteou com o último álbum da maluquete-esquimó-pop-alternativa Björk(a foto ao lado é dela), Medúla.
Certamente, ela (minha namorada) está se perguntando o que eu (ou)vi nesta bagunça de sons aparentemente desconexos e quase livres de instrumentos que não a voz dela (da Björk) e de outros. Também não entendi muito bem a proposta da hobbit esquimó logo de cara, mas não conseguia também tirar as músicas da cabeça logo depois de ouvir Medúla pela primeira vez.
São canções melancólicas, que alternam silêncios preenchidos apenas pela voz frágil e levemente desesperada da cantora com explosões de sons que duram pouco. Quando ela parece declamar a música, você acha que ela está cantando e vice-versa. É belo e um tanto aterrorizante, quase uma ópera pop de tons religiosos escrita por um ateu, se é que deu para entender onde quis chegar. Claro que não, e na verdade, eu não queria explicar nada mesmo senão minha carreira de crítico estará perdida para sempre.
Sim, eu sempre gostei de Björk e sua capacidade de fazer coisas estranhas, belas e cruéis. E, convenhamos, a capa deste álbum é belíssima.
Nada é mais vulgar, bobo e brega do que comentar no seu blog os presentes de aniversário que você recebeu. E é exatamente o que farei agora. Minha namorada me presenteou com o último álbum da maluquete-esquimó-pop-alternativa Björk(a foto ao lado é dela), Medúla.
Certamente, ela (minha namorada) está se perguntando o que eu (ou)vi nesta bagunça de sons aparentemente desconexos e quase livres de instrumentos que não a voz dela (da Björk) e de outros. Também não entendi muito bem a proposta da hobbit esquimó logo de cara, mas não conseguia também tirar as músicas da cabeça logo depois de ouvir Medúla pela primeira vez.
São canções melancólicas, que alternam silêncios preenchidos apenas pela voz frágil e levemente desesperada da cantora com explosões de sons que duram pouco. Quando ela parece declamar a música, você acha que ela está cantando e vice-versa. É belo e um tanto aterrorizante, quase uma ópera pop de tons religiosos escrita por um ateu, se é que deu para entender onde quis chegar. Claro que não, e na verdade, eu não queria explicar nada mesmo senão minha carreira de crítico estará perdida para sempre.
Sim, eu sempre gostei de Björk e sua capacidade de fazer coisas estranhas, belas e cruéis. E, convenhamos, a capa deste álbum é belíssima.
14 de outubro de 2004
CCB
O CCB (Comando de Caça aos Blogs) informa que a temporada ainda não terminou. Depois que o site Imprensa Marrom foi gentilmente arrancado do ar por decisão judicial, Cristiano Dias decidiu subtrair o próprio blog por um tempo para reformulá-lo, logo após receber uma mensagem enigmática e ameaçadora entre os seus comentários. O mais absurdo é que a ação judicial que levou a exclusão do Imprensa Marrom (sim, ele está de volta) baseava-se em um comentário de um internauta sobre uma empresa de recolocação profissional. Lembra-se do caso da Dow Right, que conseguiu a proeza de tumultuar a vida da Você S.A.? Algo parecido, mas com outro protagonista.
Mesmo que o seu blog, como este que vos fala, esteja hospedado num provedor estrangeiro, leia com atenção o Manual de sobrevivência na selva de bits: evitando as ações judiciais contra publicações na Internet, de autoria da advogada e blogueira Cynthia Semíramis. Como disse o Inagaki, é clichê, mas vale a pena repetir: a luta é de todos nós. E, por favor, apesar desta última frase, eu não sou petista, sou internauta.
O CCB (Comando de Caça aos Blogs) informa que a temporada ainda não terminou. Depois que o site Imprensa Marrom foi gentilmente arrancado do ar por decisão judicial, Cristiano Dias decidiu subtrair o próprio blog por um tempo para reformulá-lo, logo após receber uma mensagem enigmática e ameaçadora entre os seus comentários. O mais absurdo é que a ação judicial que levou a exclusão do Imprensa Marrom (sim, ele está de volta) baseava-se em um comentário de um internauta sobre uma empresa de recolocação profissional. Lembra-se do caso da Dow Right, que conseguiu a proeza de tumultuar a vida da Você S.A.? Algo parecido, mas com outro protagonista.
Mesmo que o seu blog, como este que vos fala, esteja hospedado num provedor estrangeiro, leia com atenção o Manual de sobrevivência na selva de bits: evitando as ações judiciais contra publicações na Internet, de autoria da advogada e blogueira Cynthia Semíramis. Como disse o Inagaki, é clichê, mas vale a pena repetir: a luta é de todos nós. E, por favor, apesar desta última frase, eu não sou petista, sou internauta.
7 de outubro de 2004
3 de outubro de 2004
Festa da Democracia
Voto no mesmo colégio no qual estudei por meus oito anos de primário. Geralmente, acabo encontrando alguns ex-colegas que andaram perdidos por aí. Neste ano foi diferente, havia apenas um paredão de militantes (mal e porcamente pagos, certamente) com seus "santinhos", pedindo para que eu votasse no Fulano da Padaria, Sicrano da Locadora ou Beltrano da Sex-Shop. As ruas estavam cobertas por uma camada imunda de papéis, jornais e outros artifícios para tentar fisgar eleitores de última hora - não era o meu caso, evidentemente.
Mas a felicidade de todo este povo me incomoda - o que há para se comemorar assim, com estes sorrisos bobos e promessas vazias de melhorias? Festa da democracia o escambau! Quem me conhece bem, sabe que defendo a democracia com unhas, dentes e uns sopapos, democrática e digitalmente aplicados, se necessário, mas chamar este evento de "festa" é rir em alto som da nossa inteligência.
Só ficam felizes neste festim dois tipos de idiotas. Os ridiculamente manipulados, que comparecem a comícios e outras bobagens, convictos de que estão dando um passo na melhoria de suas vidas. Estes gostam de candidatos populistas, que sobem a favela, beijam criancinha doente e fazem promessas para um paciente moribundo do SUS (leia-se o que bem entender). O outro grupo é formado por militantes, um tipinho que costuma esconder uma fúria colossal por baixo de sorrisos e promessas de solidariedade eterna, proibindo até o candidato adiversário de andar em praça pública (repito de novo: leia-se o que bem entender). Estes gostam dos candidatos à esquerda, que gostam de posar como se unanimidade fossem, não beijam criancinha, mas prometem "justiça social", que é uma forma sofisticada de populismo para ouvidos treinados.
Ah, claro, existem os bobos-alegres mesmo, mas estes sorriem até quando for anunciado o fim do mundo.
No mais, política é, em noventa e nove por cento dos casos, coisa de gente pequena, bem miudinha. Gente realmente grande faz grande política, mas estes são tempos de pouquíssimos homens assim. Nunca tive a oportunidade de votar num destes. Nem mesmo hoje.
Voto no mesmo colégio no qual estudei por meus oito anos de primário. Geralmente, acabo encontrando alguns ex-colegas que andaram perdidos por aí. Neste ano foi diferente, havia apenas um paredão de militantes (mal e porcamente pagos, certamente) com seus "santinhos", pedindo para que eu votasse no Fulano da Padaria, Sicrano da Locadora ou Beltrano da Sex-Shop. As ruas estavam cobertas por uma camada imunda de papéis, jornais e outros artifícios para tentar fisgar eleitores de última hora - não era o meu caso, evidentemente.
Mas a felicidade de todo este povo me incomoda - o que há para se comemorar assim, com estes sorrisos bobos e promessas vazias de melhorias? Festa da democracia o escambau! Quem me conhece bem, sabe que defendo a democracia com unhas, dentes e uns sopapos, democrática e digitalmente aplicados, se necessário, mas chamar este evento de "festa" é rir em alto som da nossa inteligência.
Só ficam felizes neste festim dois tipos de idiotas. Os ridiculamente manipulados, que comparecem a comícios e outras bobagens, convictos de que estão dando um passo na melhoria de suas vidas. Estes gostam de candidatos populistas, que sobem a favela, beijam criancinha doente e fazem promessas para um paciente moribundo do SUS (leia-se o que bem entender). O outro grupo é formado por militantes, um tipinho que costuma esconder uma fúria colossal por baixo de sorrisos e promessas de solidariedade eterna, proibindo até o candidato adiversário de andar em praça pública (repito de novo: leia-se o que bem entender). Estes gostam dos candidatos à esquerda, que gostam de posar como se unanimidade fossem, não beijam criancinha, mas prometem "justiça social", que é uma forma sofisticada de populismo para ouvidos treinados.
Ah, claro, existem os bobos-alegres mesmo, mas estes sorriem até quando for anunciado o fim do mundo.
No mais, política é, em noventa e nove por cento dos casos, coisa de gente pequena, bem miudinha. Gente realmente grande faz grande política, mas estes são tempos de pouquíssimos homens assim. Nunca tive a oportunidade de votar num destes. Nem mesmo hoje.
30 de setembro de 2004
A Lista de Todas as Listas
Listas são sempre uma coisa complicada. Os 10 melhores contos brasileiros do século XXI, os 15 mais estúpidos participantes de reality shows, as 12 mais belas espécies de borboletas anãs de Papua Nova-Guiné, estas coisas. Enfim, desconfiado como sou dos programas oficiais de incentivo a leitura e educação, fui dar uma olhada na lista de livros selecionados para o programa Fome de Livro, que pretende espalhar bibliotecas públicas pela nossa terra nhambiquara. São 2016 títulos, pulverizados em várias editoras, com óbvia predominância das grandalhonas (Companhia das Letras, Record, Ediouro, Nova Fronteira...) e algumas menores aqui e ali. Se você tiver paciência de ler o calhamaço, este link da Associação Brasileira de Editores de Livros vai te trazer um arquivo de planilha do Microsoft Excel – é baixar e ler.
Claro, atraído pela estranha notícia comentada no blog Pró Tensão, de que nenhum título de sociólogo Gilberte Freyre foi selecionado, resolvi dar uma olhada na tal lista rapidamente.
De cara, descubro que Darcy Ribeiro foi contemplado com três livro, Frei Betto com um (sobre o místico cristão Teillhard de Chardin?) e Leonardo Boff comparece também com três. Levando em consideração que Boff afirmou, não lembro mais onde, que a evolução se deve ao comunismo biológico, porque os animais sociais levavam vantagem sobre os solitários, comecei a duvidar da tal seleção.
Mas, em resumo, a lista seguiu aquela bobagem de ser "dialética", o que, na cabecinha da maioria dos intelectuais, significa dar voz tanto à "esquerda" quanto à "direita" num mesmo documento ou trabalho. Vai entender. Não é uma seleção ruim pela rápida investigação que fiz, tem um bom número de autores cuja leitura deveria ser mesmo obrigatória – Machado de Assis, Marcel Proust, Graciliano Ramos, Dostoiéviski, Guimarães Rosa, Shakespeare, Tolstói, e por aí vai, os queridinhos de sempre. Tem até James Joyce, para gozo dos literatos modernos – a propósito, eu gosto de Joyce sim, e daí?
Enfim, vale citar as curiosidades da lista, que é algo muito mais divertido do que enumerar méritos e equívocos de mais uma lista de 2016 títulos. A falta mais sentida é de Karl Marx – nada de Capital nem Manifesto Comunista! Uma afronta a matrix, opa, "matriz teórica" dos intelectuais que elogiam nosso governo federal. Por falar neles, não tem Marilena Chauí também, mas tem Leandro Konder. Por outro lado, há a História do Cristianismo, do conservador Paul Johnson e Harold Bloom, outro costumeiramente classificado como da mesma turma de Johnson, está representado por seus três (belos) livros para "crianças extremamente inteligentes". Mas o que fará uma biblioteca lá de uma cidadezinha ardida pela seca de Pernambuco com a pérola Bolos – Preparos e Confeitos? Ah, se o Paulo Freire soubesse disso – e você acha que Pedagogia do Oprimido ficaria de fora? Ainda temos o milenar A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e dois personagens antológicos dos quadrinhos: Mafalda, de Quino, e Tin-Tin, de Hergé.
Cabe uma perguntinha besta: Por que a lista inclui o Mahabahrata, um livro do Dalai Lama e Mitologia dos Orixás, mas nenhuma Bíblia? E por falar em religião, porque nada da ótima Karen Armstrong? Eu trocaria o livro de Tariq Ali, Confronto de Fundamentalismos, pelo Em Nome de Deus: As Origens do Fundamentalismo no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo dela num piscar de olhos.
E, sim, procurei por "Lula" e veja o que encontrei: Lula – O Filho do Brasil, de Denise Paraná, publicado pela editora da fundação Perseu Abramo. Um tanto óbvio.
Só para encerrar: Crime e Castigo está creditado a Dostoicusky, que eu francamente não conheço.
Listas são sempre uma coisa complicada. Os 10 melhores contos brasileiros do século XXI, os 15 mais estúpidos participantes de reality shows, as 12 mais belas espécies de borboletas anãs de Papua Nova-Guiné, estas coisas. Enfim, desconfiado como sou dos programas oficiais de incentivo a leitura e educação, fui dar uma olhada na lista de livros selecionados para o programa Fome de Livro, que pretende espalhar bibliotecas públicas pela nossa terra nhambiquara. São 2016 títulos, pulverizados em várias editoras, com óbvia predominância das grandalhonas (Companhia das Letras, Record, Ediouro, Nova Fronteira...) e algumas menores aqui e ali. Se você tiver paciência de ler o calhamaço, este link da Associação Brasileira de Editores de Livros vai te trazer um arquivo de planilha do Microsoft Excel – é baixar e ler.
Claro, atraído pela estranha notícia comentada no blog Pró Tensão, de que nenhum título de sociólogo Gilberte Freyre foi selecionado, resolvi dar uma olhada na tal lista rapidamente.
De cara, descubro que Darcy Ribeiro foi contemplado com três livro, Frei Betto com um (sobre o místico cristão Teillhard de Chardin?) e Leonardo Boff comparece também com três. Levando em consideração que Boff afirmou, não lembro mais onde, que a evolução se deve ao comunismo biológico, porque os animais sociais levavam vantagem sobre os solitários, comecei a duvidar da tal seleção.
Mas, em resumo, a lista seguiu aquela bobagem de ser "dialética", o que, na cabecinha da maioria dos intelectuais, significa dar voz tanto à "esquerda" quanto à "direita" num mesmo documento ou trabalho. Vai entender. Não é uma seleção ruim pela rápida investigação que fiz, tem um bom número de autores cuja leitura deveria ser mesmo obrigatória – Machado de Assis, Marcel Proust, Graciliano Ramos, Dostoiéviski, Guimarães Rosa, Shakespeare, Tolstói, e por aí vai, os queridinhos de sempre. Tem até James Joyce, para gozo dos literatos modernos – a propósito, eu gosto de Joyce sim, e daí?
Enfim, vale citar as curiosidades da lista, que é algo muito mais divertido do que enumerar méritos e equívocos de mais uma lista de 2016 títulos. A falta mais sentida é de Karl Marx – nada de Capital nem Manifesto Comunista! Uma afronta a matrix, opa, "matriz teórica" dos intelectuais que elogiam nosso governo federal. Por falar neles, não tem Marilena Chauí também, mas tem Leandro Konder. Por outro lado, há a História do Cristianismo, do conservador Paul Johnson e Harold Bloom, outro costumeiramente classificado como da mesma turma de Johnson, está representado por seus três (belos) livros para "crianças extremamente inteligentes". Mas o que fará uma biblioteca lá de uma cidadezinha ardida pela seca de Pernambuco com a pérola Bolos – Preparos e Confeitos? Ah, se o Paulo Freire soubesse disso – e você acha que Pedagogia do Oprimido ficaria de fora? Ainda temos o milenar A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e dois personagens antológicos dos quadrinhos: Mafalda, de Quino, e Tin-Tin, de Hergé.
Cabe uma perguntinha besta: Por que a lista inclui o Mahabahrata, um livro do Dalai Lama e Mitologia dos Orixás, mas nenhuma Bíblia? E por falar em religião, porque nada da ótima Karen Armstrong? Eu trocaria o livro de Tariq Ali, Confronto de Fundamentalismos, pelo Em Nome de Deus: As Origens do Fundamentalismo no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo dela num piscar de olhos.
E, sim, procurei por "Lula" e veja o que encontrei: Lula – O Filho do Brasil, de Denise Paraná, publicado pela editora da fundação Perseu Abramo. Um tanto óbvio.
Só para encerrar: Crime e Castigo está creditado a Dostoicusky, que eu francamente não conheço.
23 de setembro de 2004
Porque me ufano do meu país... (eu disse ufano!)
Desde a primeira vez em que recebi esta bizarra mensagem, tive vontade de comentá-la - e olha que isso já tem uns bons anos. Não porque a achava boa, pelo contrário: além de duvidar da sua veracidade (escritora holandesa falando sobre o Brasil?), é um mistureba maluco de fatos verdadeiros, bobagens sem pé nem cabeça e mentiras deslavadas.
Segue a mensagem na íntegra, como foi publicada no fórum do GUJ - Grupo de Usuários Java , em itálico, e a cada trecho que considerei interessante enxertei meus comentários. Antes que alguém venha me dizer que estou sendo pessimista ou mainardista (você vai entender logo abaixo), leia com atenção e verá que enumero pontos, digamos, positivos, também.
A propósito, faça um favor a mim e a si mesmo: comente os meus comentários, mas deixe minha mãe de fora., ok? Nada pior do que receber xingo de patriota neurótico.
(Atenção: Este post concorre para o prêmio "Maior e Mais Ilegível Post Publicado em Blogs Brasileiros de 2004")
COMENTÁRIOS DE UMA ESCRITORA HOLANDESA SOBRE O BRASIL...
..."Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil
realmente parece que é um vício falar mal do Brasil. Todo lugar tem seus
pontos positivos e negativos, mas no exterior eles maximizam os
positivos, enquanto no Brasil se maximizam os negativos.
Aqui na Holanda, os resultados das eleições demoram horrores porque
não há nada automatizado. Só existe uma companhia telefônica e pasmem!:
Se você ligar reclamando do serviço, corre o risco de ter seu telefone
temporariamente desconectando.
Antes de mais nada, está na hora de dizer que processo de apuração eleitoral informatizado não quer dizer maturidade democrática. Estamos na frente de muitos (ou todos) países nesta tecnologia, mas na democracia ainda falta um bom caminho (embora devemos confessar que também já evoluímos muito) a trilhar.
Pois é, no Brasil a telefonia só não é assim ainda porque foi privatizada e pulverizada. Não que o atendimento seja grande coisa também.
Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o
sanduíche em um guardanapo - ou de lavar as mãos antes de comer.
E daí? Em quê isso nos torna melhores do que eles? E basta freqüentar qualquer copo sujo para ver que higiene na hora de comer não é lá um dos nossos fortes.
Nas padarias, feiras e açougues europeus, os atendentes recebem o dinheiro e
com mesma mão suja entregam o pão ou a carne. Em Londres, existe um lugar famosíssimo que vende batatas fritas enroladas em folhas de jornal - e tem fila na porta.
Você nunca foi a uma feira brasileira, foi? Ou acha que os atendentes usam luvas de látex aqui? Ou, ainda, acha que o atendente e o dono do açougue ou da barraca na feira não são a mesma pessoa?
Na Europa, não-fumante é minoria. Se pedir mesa de não-fumante, o
garçom ri na sua cara, porque não existe. Fumam até em elevador.
Verdade. A França é um inferno esfumaçado, dizem. Mas dizer "Europa" como se aquele amontoado de países num espaço menor do que o Brasil fossem uma coisa só é forçar a barra.
Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e
qualquer garçom de botequim no Brasil podia ir pra lá dar aulas de "Como
conquistar o Cliente".
Soube que em Florença é a mesma coisa. Neste quesito, conta a nosso favor nossa cultura do bar, do boteco e da cerveja. Além do quê, brasileiro é lerdo, mas o mínimo de capitalismo ele conhece: se não atende bem o cliente, fecha as portas na primeira semana.
Você sabe como as grandes potências fazem para destruir um povo?
Impõem suas crenças e cultura. Se você parar para observar, em todo
filme dos EUA a bandeira nacional aparece, e geralmente na hora em que
estamos emotivos.
Problema deles. Quem manda a gente cair neste truque besta?
Vocês têm uma língua que, apesar de não se parecer quase nada com a
língua portuguesa, é chamada de língua portuguesa, enquanto que as
empresas de software a chamam de português brasileiro, porque não
conseguem se comunicar com os seus usuários brasileiros através da
língua Portuguesa.
"Quase nada" é exagero. Como se um português e um brasileiro precisassem de intérpretes o tempo todo para se comunicarem.
Os brasileiros são vitimas de vários crimes contra a pátria, crenças,
cultura, língua, etc... Os brasileiros mais esclarecidos sabem que temos
muitas razões para resgatar suas raízes culturais."...
- Palavras de uma escritora holandesa, que já viajou pelos mais
comentados lugares do mundo, após recente temporada no Brasil.
Isso merece muito comentário, além do espaço deste blog. Fica para outra hora.
Os dados são da Antropos Consulting:
1. O Brasil é o país que tem tido maior sucesso no combate à AIDS e
de outras doenças sexualmente transmissíveis, e vem sendo exemplo mundial.
Verdade. Mas também é verdade que a AIDS por aqui se dissemina com rapidez e muita gente acha que não precisa se precaver porque terá ajuda do governo se ficar doente.
2. O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando
do Projeto Genoma.
E a Austrália? Bom, mas não apenas isso. Estamos entre os grandes na pesquisa genética de plantas e há até um curso de pós-doutoramento em genética aqui.
3. Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade
do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.
Eu diria que, na média, o brasileiro é bem solidário, não apenas o do Rio de Janeiro.
4. Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral
(TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados
em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a
atenção de uma das maiores potências mundiais: os Estados Unidos, onde a
apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o
resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.
Já comentei isso antes.
5. Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas
brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.
Quanto a isso, não tenho dúvidas: Qualquer bobagem que aparece na internet terá a maciça participação de brasileiros. Vide o Orkut.
6. No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se
instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.
Ué, mas não somos o menos subdesenvolvido dos países da América Latina?
7. Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.
Estudando mal e aprendendo mal. Vá lá ver o resultado do teste internacional de ensino Pisa 2000 e veja em que posição ficamos. Adivinhou? Isso mesmo, último. Nossos estudantes não sabem interpretar textos simples nem fazer contas elementares.
8. O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo,
com 650 mil novas habilitações a cada mês.
9. Na telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de
linhas instaladas.
Leia o que disse antes sobre o serviço de telefonia. Se não fosse a privatização e as metas impostas pelo nosso modelo, ainda seríamos um país em que telefone era investimento no nível de uma casa - lembra-se dos malditos Planos de Expansão das Estatais?
10. Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade
ISO-9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México,
são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.
Não pesquisei os números atuais e nem sei se estes estão corretos, mas é fato que as empresas
daqui "correm atrás" de certificações de qualidade sim - o mesmo vale para os profissionais.
11. O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos.
Se eu fosse um esquerdista recauchutado, eu até poderia dizer que isso é graças a desigualdade social do nosso país. Felizmente, pouparei meus leitores deste tipo de bobagem. O bom mesmo é lembrar a competência da Embraer, isto é um fato verdadeiro e inegável.
Por que vocês têm esse vício de só falar mal do Brasil?
Sei lá. Pergunta pro Diogo Mainardi. Ele vai te oferecer o próprio livro, Contra o Brasil, e você terá o mais completo guia de impropérios jamais ditos sobre este país - por gente como Darwin, Camus, Euclides da Cunha, etc.
1. Por que não se orgulham em dizer que o mercado editorial de
livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada
ano?
A maioria absoluta é de livros didáticos. Mais: com a união entre as escolas e as editoras, dificilmente um livro é reaproveitado de um ano para outro. Se o brasileiro lê muito, só lê bobagem - como qualquer outro povo do mundo, mas em grau maior.
2. Que têm o mais moderno sistema bancário do planeta?
Pouca gente sabe disso. Mas sabe por que temos este fantástico sistema bancário? Porque nossa economia oscila de tal forma que apenas um sistema robusto e muito bem planejado sobreviveria a nós.
3. Que suas agências de publicidade ganham os melhores e maiores
prêmios mundiais?
Verdade. Somos bons mesmo nisso. Pena que na hora de vender o país lá fora, apelemos para os clichês de sempre: bunda, carnaval, bunda, mulheres, bunda, Amazônia e bunda.
4. Por que não falam que são o país mais empreendedor do mundo e
que mais de 70% dos brasileiros, pobres e ricos, dedicam considerável
parte de seu tempo em trabalhos voluntários?
Hummm... 70%? Sei não. Acho que uns 40% é que precisam de ser ajudados em trabalhos voluntários...
Empreendedores? Sim, somos. Mas não conseguimos crescer muito porque os impostos, a burocracia e a estupidez do Estado em oferecer condições mínimas para o registro de qualquer empresa de fundo de quintal soterram as ambições pessoais.
5. Por que não dizem que são hoje a terceira maior democracia do mundo?
Em quê? Número de habitantes, claro.
6. Que apesar de todas as mazelas, o Congresso está punindo seus
próprios membros, o que raramente ocorre em outros países ditos civilizados?
E o povo continua votando nos que "roubam, mas fazem"... Assim o que não vai faltar é político
para ser punido. Viva a nossa maturidade política!
7. Por que não se lembram que o povo brasileiro é um povo
hospitaleiro, que se esforça para falar a língua dos turistas, gesticula
e não mede esforços para atendê- los bem?
Verdade. E, mesmo assim, lucramos e investimos menos em turismo do que a minúscula França. Qual o nome disto, senão incompetência?
8. Por que não se orgulham de ser um povo que faz piada da própria
desgraça e que enfrenta os desgostos sambando.
O pior é que a gente se orgulha! E continua sambando, feliz e alegre da vida, enquanto o país continua patinando de lado para outro. Que bom, não é mesmo?
É! O Brasil é um país abençoado de fato.
Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os
credos !!!
Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques !!!
Bendito este povo, que oferece todos os tipos de climas para contentar
toda gente !!!
Bendita seja, querida pátria chamada BRASIL!!!
Que os anjos digam amém.
Divulgue esta mensagem para o máximo de pessoas que você puder. Com
essa atitude, talvez não consigamos mudar o modo de pensar de cada
brasileiro, mas ao ler estas palavras irá, pelo menos, por alguns
momentos, refletir e se orgulhar de ser BRASILEIRO!!!
Não envio mensagem ufanista, obrigado.
Precisamos é de gente que tenha bom humor para não se levar muito a sério, nem a uma mensagem como esta. Aliás, o que menos precisamos é deste ufanismo besta, este orgulho vazio. Há muito o que apoiar e muito mais o que criticar, e é só assim que esta terrinha botocuda, quem sabe, com alguma sorte, andará para frente.
Desde a primeira vez em que recebi esta bizarra mensagem, tive vontade de comentá-la - e olha que isso já tem uns bons anos. Não porque a achava boa, pelo contrário: além de duvidar da sua veracidade (escritora holandesa falando sobre o Brasil?), é um mistureba maluco de fatos verdadeiros, bobagens sem pé nem cabeça e mentiras deslavadas.
Segue a mensagem na íntegra, como foi publicada no fórum do GUJ - Grupo de Usuários Java , em itálico, e a cada trecho que considerei interessante enxertei meus comentários. Antes que alguém venha me dizer que estou sendo pessimista ou mainardista (você vai entender logo abaixo), leia com atenção e verá que enumero pontos, digamos, positivos, também.
A propósito, faça um favor a mim e a si mesmo: comente os meus comentários, mas deixe minha mãe de fora., ok? Nada pior do que receber xingo de patriota neurótico.
(Atenção: Este post concorre para o prêmio "Maior e Mais Ilegível Post Publicado em Blogs Brasileiros de 2004")
COMENTÁRIOS DE UMA ESCRITORA HOLANDESA SOBRE O BRASIL...
..."Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil
realmente parece que é um vício falar mal do Brasil. Todo lugar tem seus
pontos positivos e negativos, mas no exterior eles maximizam os
positivos, enquanto no Brasil se maximizam os negativos.
Aqui na Holanda, os resultados das eleições demoram horrores porque
não há nada automatizado. Só existe uma companhia telefônica e pasmem!:
Se você ligar reclamando do serviço, corre o risco de ter seu telefone
temporariamente desconectando.
Antes de mais nada, está na hora de dizer que processo de apuração eleitoral informatizado não quer dizer maturidade democrática. Estamos na frente de muitos (ou todos) países nesta tecnologia, mas na democracia ainda falta um bom caminho (embora devemos confessar que também já evoluímos muito) a trilhar.
Pois é, no Brasil a telefonia só não é assim ainda porque foi privatizada e pulverizada. Não que o atendimento seja grande coisa também.
Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o
sanduíche em um guardanapo - ou de lavar as mãos antes de comer.
E daí? Em quê isso nos torna melhores do que eles? E basta freqüentar qualquer copo sujo para ver que higiene na hora de comer não é lá um dos nossos fortes.
Nas padarias, feiras e açougues europeus, os atendentes recebem o dinheiro e
com mesma mão suja entregam o pão ou a carne. Em Londres, existe um lugar famosíssimo que vende batatas fritas enroladas em folhas de jornal - e tem fila na porta.
Você nunca foi a uma feira brasileira, foi? Ou acha que os atendentes usam luvas de látex aqui? Ou, ainda, acha que o atendente e o dono do açougue ou da barraca na feira não são a mesma pessoa?
Na Europa, não-fumante é minoria. Se pedir mesa de não-fumante, o
garçom ri na sua cara, porque não existe. Fumam até em elevador.
Verdade. A França é um inferno esfumaçado, dizem. Mas dizer "Europa" como se aquele amontoado de países num espaço menor do que o Brasil fossem uma coisa só é forçar a barra.
Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e
qualquer garçom de botequim no Brasil podia ir pra lá dar aulas de "Como
conquistar o Cliente".
Soube que em Florença é a mesma coisa. Neste quesito, conta a nosso favor nossa cultura do bar, do boteco e da cerveja. Além do quê, brasileiro é lerdo, mas o mínimo de capitalismo ele conhece: se não atende bem o cliente, fecha as portas na primeira semana.
Você sabe como as grandes potências fazem para destruir um povo?
Impõem suas crenças e cultura. Se você parar para observar, em todo
filme dos EUA a bandeira nacional aparece, e geralmente na hora em que
estamos emotivos.
Problema deles. Quem manda a gente cair neste truque besta?
Vocês têm uma língua que, apesar de não se parecer quase nada com a
língua portuguesa, é chamada de língua portuguesa, enquanto que as
empresas de software a chamam de português brasileiro, porque não
conseguem se comunicar com os seus usuários brasileiros através da
língua Portuguesa.
"Quase nada" é exagero. Como se um português e um brasileiro precisassem de intérpretes o tempo todo para se comunicarem.
Os brasileiros são vitimas de vários crimes contra a pátria, crenças,
cultura, língua, etc... Os brasileiros mais esclarecidos sabem que temos
muitas razões para resgatar suas raízes culturais."...
- Palavras de uma escritora holandesa, que já viajou pelos mais
comentados lugares do mundo, após recente temporada no Brasil.
Isso merece muito comentário, além do espaço deste blog. Fica para outra hora.
Os dados são da Antropos Consulting:
1. O Brasil é o país que tem tido maior sucesso no combate à AIDS e
de outras doenças sexualmente transmissíveis, e vem sendo exemplo mundial.
Verdade. Mas também é verdade que a AIDS por aqui se dissemina com rapidez e muita gente acha que não precisa se precaver porque terá ajuda do governo se ficar doente.
2. O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando
do Projeto Genoma.
E a Austrália? Bom, mas não apenas isso. Estamos entre os grandes na pesquisa genética de plantas e há até um curso de pós-doutoramento em genética aqui.
3. Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade
do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.
Eu diria que, na média, o brasileiro é bem solidário, não apenas o do Rio de Janeiro.
4. Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral
(TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados
em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a
atenção de uma das maiores potências mundiais: os Estados Unidos, onde a
apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o
resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.
Já comentei isso antes.
5. Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas
brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.
Quanto a isso, não tenho dúvidas: Qualquer bobagem que aparece na internet terá a maciça participação de brasileiros. Vide o Orkut.
6. No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se
instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.
Ué, mas não somos o menos subdesenvolvido dos países da América Latina?
7. Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.
Estudando mal e aprendendo mal. Vá lá ver o resultado do teste internacional de ensino Pisa 2000 e veja em que posição ficamos. Adivinhou? Isso mesmo, último. Nossos estudantes não sabem interpretar textos simples nem fazer contas elementares.
8. O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo,
com 650 mil novas habilitações a cada mês.
9. Na telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de
linhas instaladas.
Leia o que disse antes sobre o serviço de telefonia. Se não fosse a privatização e as metas impostas pelo nosso modelo, ainda seríamos um país em que telefone era investimento no nível de uma casa - lembra-se dos malditos Planos de Expansão das Estatais?
10. Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade
ISO-9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México,
são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.
Não pesquisei os números atuais e nem sei se estes estão corretos, mas é fato que as empresas
daqui "correm atrás" de certificações de qualidade sim - o mesmo vale para os profissionais.
11. O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos.
Se eu fosse um esquerdista recauchutado, eu até poderia dizer que isso é graças a desigualdade social do nosso país. Felizmente, pouparei meus leitores deste tipo de bobagem. O bom mesmo é lembrar a competência da Embraer, isto é um fato verdadeiro e inegável.
Por que vocês têm esse vício de só falar mal do Brasil?
Sei lá. Pergunta pro Diogo Mainardi. Ele vai te oferecer o próprio livro, Contra o Brasil, e você terá o mais completo guia de impropérios jamais ditos sobre este país - por gente como Darwin, Camus, Euclides da Cunha, etc.
1. Por que não se orgulham em dizer que o mercado editorial de
livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada
ano?
A maioria absoluta é de livros didáticos. Mais: com a união entre as escolas e as editoras, dificilmente um livro é reaproveitado de um ano para outro. Se o brasileiro lê muito, só lê bobagem - como qualquer outro povo do mundo, mas em grau maior.
2. Que têm o mais moderno sistema bancário do planeta?
Pouca gente sabe disso. Mas sabe por que temos este fantástico sistema bancário? Porque nossa economia oscila de tal forma que apenas um sistema robusto e muito bem planejado sobreviveria a nós.
3. Que suas agências de publicidade ganham os melhores e maiores
prêmios mundiais?
Verdade. Somos bons mesmo nisso. Pena que na hora de vender o país lá fora, apelemos para os clichês de sempre: bunda, carnaval, bunda, mulheres, bunda, Amazônia e bunda.
4. Por que não falam que são o país mais empreendedor do mundo e
que mais de 70% dos brasileiros, pobres e ricos, dedicam considerável
parte de seu tempo em trabalhos voluntários?
Hummm... 70%? Sei não. Acho que uns 40% é que precisam de ser ajudados em trabalhos voluntários...
Empreendedores? Sim, somos. Mas não conseguimos crescer muito porque os impostos, a burocracia e a estupidez do Estado em oferecer condições mínimas para o registro de qualquer empresa de fundo de quintal soterram as ambições pessoais.
5. Por que não dizem que são hoje a terceira maior democracia do mundo?
Em quê? Número de habitantes, claro.
6. Que apesar de todas as mazelas, o Congresso está punindo seus
próprios membros, o que raramente ocorre em outros países ditos civilizados?
E o povo continua votando nos que "roubam, mas fazem"... Assim o que não vai faltar é político
para ser punido. Viva a nossa maturidade política!
7. Por que não se lembram que o povo brasileiro é um povo
hospitaleiro, que se esforça para falar a língua dos turistas, gesticula
e não mede esforços para atendê- los bem?
Verdade. E, mesmo assim, lucramos e investimos menos em turismo do que a minúscula França. Qual o nome disto, senão incompetência?
8. Por que não se orgulham de ser um povo que faz piada da própria
desgraça e que enfrenta os desgostos sambando.
O pior é que a gente se orgulha! E continua sambando, feliz e alegre da vida, enquanto o país continua patinando de lado para outro. Que bom, não é mesmo?
É! O Brasil é um país abençoado de fato.
Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os
credos !!!
Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques !!!
Bendito este povo, que oferece todos os tipos de climas para contentar
toda gente !!!
Bendita seja, querida pátria chamada BRASIL!!!
Que os anjos digam amém.
Divulgue esta mensagem para o máximo de pessoas que você puder. Com
essa atitude, talvez não consigamos mudar o modo de pensar de cada
brasileiro, mas ao ler estas palavras irá, pelo menos, por alguns
momentos, refletir e se orgulhar de ser BRASILEIRO!!!
Não envio mensagem ufanista, obrigado.
Precisamos é de gente que tenha bom humor para não se levar muito a sério, nem a uma mensagem como esta. Aliás, o que menos precisamos é deste ufanismo besta, este orgulho vazio. Há muito o que apoiar e muito mais o que criticar, e é só assim que esta terrinha botocuda, quem sabe, com alguma sorte, andará para frente.
20 de setembro de 2004
Porque Michael Moore é apenas mais um idiota
Michael Moore é o mais evidente porta-voz dos opositores do presidente norte-americano George W.Bush e sua notoriedade nunca foi tão grande quanto agora, em que filia seu nome ao de John Kerry e acaba de ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Antes de mais nada, repito o óbvio: Fahrenheit 9/11 não é documentário, é um panfleto político. Pior que isso: um panfleto ruim. Moore abusa de sentimentalismos e manipulações que parecem saídos dos porões da própria Washington que critica.
A filósofa, estudiosa e crítica de cinema francesa Laurence Hansen-Love qualifica o presidente Bush de “abominável”, mas nem por isso comunga do cinema-denúncia de Moore. Sua indignação com a premiação máxima do celebrado festival internacional francês a Fahrenheit 9/11 vai além do simples gosto pessoal. A pensadora acusa Moore de praticar a “arte do amálgama” num grau inédito, abusando de simplificações, atalhos, emoções fáceis e caricaturas para comprovar suas teses. “Michael Moore não nos fornece explicações convincentes ou elementos para tornar as coisas inteligíveis; ao contrário, seu propósito é uma confusão total. Ele nos faz rir, diverte, mas não colabora para que as pessoas reflitam e assumam suas responsabilidades. Ele degrada e despreza a política, e isso não nos faz avançar”, disse à Primeira Leitura.
Este é o trecho que destaquei do artigo Moore, o império do espetáculo contra-ataca, publicado pela revista e que você pode ler na íntegra clicando aqui.
Michael Moore é o mais evidente porta-voz dos opositores do presidente norte-americano George W.Bush e sua notoriedade nunca foi tão grande quanto agora, em que filia seu nome ao de John Kerry e acaba de ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Antes de mais nada, repito o óbvio: Fahrenheit 9/11 não é documentário, é um panfleto político. Pior que isso: um panfleto ruim. Moore abusa de sentimentalismos e manipulações que parecem saídos dos porões da própria Washington que critica.
A filósofa, estudiosa e crítica de cinema francesa Laurence Hansen-Love qualifica o presidente Bush de “abominável”, mas nem por isso comunga do cinema-denúncia de Moore. Sua indignação com a premiação máxima do celebrado festival internacional francês a Fahrenheit 9/11 vai além do simples gosto pessoal. A pensadora acusa Moore de praticar a “arte do amálgama” num grau inédito, abusando de simplificações, atalhos, emoções fáceis e caricaturas para comprovar suas teses. “Michael Moore não nos fornece explicações convincentes ou elementos para tornar as coisas inteligíveis; ao contrário, seu propósito é uma confusão total. Ele nos faz rir, diverte, mas não colabora para que as pessoas reflitam e assumam suas responsabilidades. Ele degrada e despreza a política, e isso não nos faz avançar”, disse à Primeira Leitura.
Este é o trecho que destaquei do artigo Moore, o império do espetáculo contra-ataca, publicado pela revista e que você pode ler na íntegra clicando aqui.
18 de setembro de 2004
Da natureza íntima da arte
Em artigo na revista Bravo! intitulado Por que é tão difícil gostar de arte contemporânea, Rafael Cardoso, escreve:
"O maior obstáculo à apreciação mais geral da arte contemporânea reside no modo opaco e elitista como é apresentada ao público. A arte nem sempre precisa ser entendida, de maneira racional. Porém, precisa impactar os sentidos, de modo a atingir a emoção. A arte pode divertir, instigar, chocar, perturbar. Só não pode entediar, pois assim abre mão da possibilidade de transformar o espectador, que é sua meta maior."
Eu tenho dito isso por longos anos e nem todo mundo concorda, mas então me deparo com este artigo e vejo que - felizmente - não estou só.
O intelectual escriturário
Depois que você consegue se livrar dos clichês sociológicos tão comuns nesta terra, consegue enxergar, de longe, a maior das esquisitices que eles ignoram totalmente num puro e simples auto-engano.
Não há como negar o fascínio dos que sabem construir um elaborado discurso de oposição "a tudo que aí está" – seja lá o que isso for. É uma tentação incrivelmente perigosa a de associar "inteligência" apenas com "esquerda". Isto acaba por fechar aqueles que não resistem a este "pensamento único" num círculo de auto referências e bajulações do qual ele só sairá com muito trabalho intelectual e uma boa dose de bom senso e honestidade intelectual. Há inteligências notáveis em todos os lados, sem dúvida, e ler e ouvir a ambos é obrigação de qualquer um que deseja entender um pouco mais do mundo. A escolha política de um dos "lados", anterior a uma investigação intelectual das suas teorias e discursos é responsável pelos maiores desastres humanos do século XX – de Hitler a Stálin.
Dito isso, voltemos ao que eu deveria estar mesmo discutindo. Qa Jin, autor chinês do belo A Espera, afirma, em seu segundo livro publicado no Brasil, que, após a Revolução Cultural da Mao e sua trupe, todos os intelectuais do país (e, por extensão, do partido) são meros escriturários. Esta reflexão, simples demais, óbvia demais para não ser notada, contrasta com o som e a fúria com que alguns intelectuais (incluindo um grupo bem grande de meros militantes alçados a condição de intelectuais orgânicos, com toda a flexibilidade que o termo garante) defendem seus tão altos ideais. Pois é esta capacidade de se engajar em seus projetos de "mundo melhor" que os alimenta e a seus admiradores. Uma vez alcançados seus objetivos, o que farão estes sujeitos bravos e, não raro, arrogantes? Serão apenas os escriturários do partido, uma tropa de diligentes fiéis e imbecilizados por vontade própria. Quem duvida, que vá prestar atenção ao comissário (uma forma especial de escriturário de alta patente da antiga União Soviética) Valinov, personagem do excelente filme Círculo de Fogo, e seu destino quando percebe a inutilidade de sua trajetória. Infelizmente, a maioria não tem o mesmo lampejo.
Que alguém almeje a ser escriturário, já é algo que não consigo entender. Quando toda uma geração (na verdade, mais de uma) de intelectuais sonha em ser escriturária de um Estado ainda embrionário, o que temos é um desastre – pessoas inteligentes trabalhando noite e dia para ser quase nada num futuro utópico.
Depois que você consegue se livrar dos clichês sociológicos tão comuns nesta terra, consegue enxergar, de longe, a maior das esquisitices que eles ignoram totalmente num puro e simples auto-engano.
Não há como negar o fascínio dos que sabem construir um elaborado discurso de oposição "a tudo que aí está" – seja lá o que isso for. É uma tentação incrivelmente perigosa a de associar "inteligência" apenas com "esquerda". Isto acaba por fechar aqueles que não resistem a este "pensamento único" num círculo de auto referências e bajulações do qual ele só sairá com muito trabalho intelectual e uma boa dose de bom senso e honestidade intelectual. Há inteligências notáveis em todos os lados, sem dúvida, e ler e ouvir a ambos é obrigação de qualquer um que deseja entender um pouco mais do mundo. A escolha política de um dos "lados", anterior a uma investigação intelectual das suas teorias e discursos é responsável pelos maiores desastres humanos do século XX – de Hitler a Stálin.
Dito isso, voltemos ao que eu deveria estar mesmo discutindo. Qa Jin, autor chinês do belo A Espera, afirma, em seu segundo livro publicado no Brasil, que, após a Revolução Cultural da Mao e sua trupe, todos os intelectuais do país (e, por extensão, do partido) são meros escriturários. Esta reflexão, simples demais, óbvia demais para não ser notada, contrasta com o som e a fúria com que alguns intelectuais (incluindo um grupo bem grande de meros militantes alçados a condição de intelectuais orgânicos, com toda a flexibilidade que o termo garante) defendem seus tão altos ideais. Pois é esta capacidade de se engajar em seus projetos de "mundo melhor" que os alimenta e a seus admiradores. Uma vez alcançados seus objetivos, o que farão estes sujeitos bravos e, não raro, arrogantes? Serão apenas os escriturários do partido, uma tropa de diligentes fiéis e imbecilizados por vontade própria. Quem duvida, que vá prestar atenção ao comissário (uma forma especial de escriturário de alta patente da antiga União Soviética) Valinov, personagem do excelente filme Círculo de Fogo, e seu destino quando percebe a inutilidade de sua trajetória. Infelizmente, a maioria não tem o mesmo lampejo.
Que alguém almeje a ser escriturário, já é algo que não consigo entender. Quando toda uma geração (na verdade, mais de uma) de intelectuais sonha em ser escriturária de um Estado ainda embrionário, o que temos é um desastre – pessoas inteligentes trabalhando noite e dia para ser quase nada num futuro utópico.
1 de setembro de 2004
Sentido
Sou um capitalista comunista. Amo o capitalismo, mas como detesto os capitalistas!
De Fabio Danesi Rosi, autor do FDR e membro do Wunderblogs.com, que acaba de lançar seu livro Todas as Festas Felizes Demais.
Sou um capitalista comunista. Amo o capitalismo, mas como detesto os capitalistas!
De Fabio Danesi Rosi, autor do FDR e membro do Wunderblogs.com, que acaba de lançar seu livro Todas as Festas Felizes Demais.
29 de agosto de 2004
E as Olímpiadas, hein?
Pronto, acabaram-se as Olimpíadas. Para desespero de uns poucos e alívio de outros poucos, a "festa do esporte" em Atenas foi concluída com saldo bem positivo para o Brasil. Aliás, "festa do esporte" é daqueles clichês bestas aos quais nos acostumamos sem perceber; muito parecido com o igualmente detestável "festa da democracia" - alguém já viu um eleitor comum, como eu ou você, feliz na fila de votação? - ou "o maior espetáculo do mundo", para se referir ao Carnaval. Falando no malfadado Carnaval, descobri que a relação das pessoas com as Olímpiadas é bem parecida com a que temos com a festa de Momo. Quem gosta de verdade, vira zumbi e assiste a todas as transmissões de todas as modalidades possíveis, seja uma partida de Badminton entre Papua Nova Guiné e Kiribati às três da madrugada com narração de Galvão Bueno. Já a turma do contra finge que não é com ele, esnoba os atletas, diz que o Brasil nunca vai chegar lá e aproveita para falar mal (de novo) do Galvão Bueno.
Como já disse, sou da turma que despreza o Carnaval. Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre as Olimpíadas. Confesso que parei em plena tarde de trabalho para ver a Daiane não conseguir a sonhada medalha e vibrei com o ouro obtido no vôlei masculino - eu sempre gostei de vôlei e por um curto período em minha fascinante trajetória esportiva, fui um jogador ligeiramente acima da média, mas esta é outra história ridícula que, felizmente, vocês jamais lerão.
Mas que enche o saco, isso enche. A quantidade de clichês despejados por narradores, comentaristas e outros bichos esquisitos do esporte supera fácil os blogs brazucas. Toda propaganda resolve tomar uma carona - e tome "Uma Olímpiada dos Preços Baixos!", "Medalha de Ouro em Liquidações!", "Suba no pódio das ofertas!" nos ouvidos. E haja paciência para ver entrevista com os primos dos vizinhos do sobrinho do irmão do pai do atleta que levou o bronze, todos chorando em sua casinha perdida em Tinguaçu do Norte. Felizmente, uma coisa boa esta última competição nos trouxe: descobrimos que tem gente mais chata do que o Galvão Bueno (de novo!!!) narrando jogos diversos.
Por outro lado, o esporte sempre foi correia de transmissão das formas mais tolas de patriotismo (preciso citar Samuel Johnson?). O ministro dos esportes e sua comitiva lá em Atenas não me deixam esquecer de que a campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro" vai ganhar ainda mais fôlego.
Deve ser por isso que o Diogo Mainardi, na Veja, disse que iria torcer contra.
Nota final - Alguém, por favor, avise ao padre irlandês Neil Horan que os melhores lugares para seus protestos é na Irlanda do Norte, no Afeganistão ou no Iraque. Como fez no ano passado no GP de Silverstone, Horan invadiu uma prova esportiva e conseguiu a proeza de avacalhar o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, que estava em primeiro lugar. Se Vanderlei iria mesmo levar o ouro ou não, ninguém jamais saberá, graças ao genial Horan.
Pronto, acabaram-se as Olimpíadas. Para desespero de uns poucos e alívio de outros poucos, a "festa do esporte" em Atenas foi concluída com saldo bem positivo para o Brasil. Aliás, "festa do esporte" é daqueles clichês bestas aos quais nos acostumamos sem perceber; muito parecido com o igualmente detestável "festa da democracia" - alguém já viu um eleitor comum, como eu ou você, feliz na fila de votação? - ou "o maior espetáculo do mundo", para se referir ao Carnaval. Falando no malfadado Carnaval, descobri que a relação das pessoas com as Olímpiadas é bem parecida com a que temos com a festa de Momo. Quem gosta de verdade, vira zumbi e assiste a todas as transmissões de todas as modalidades possíveis, seja uma partida de Badminton entre Papua Nova Guiné e Kiribati às três da madrugada com narração de Galvão Bueno. Já a turma do contra finge que não é com ele, esnoba os atletas, diz que o Brasil nunca vai chegar lá e aproveita para falar mal (de novo) do Galvão Bueno.
Como já disse, sou da turma que despreza o Carnaval. Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre as Olimpíadas. Confesso que parei em plena tarde de trabalho para ver a Daiane não conseguir a sonhada medalha e vibrei com o ouro obtido no vôlei masculino - eu sempre gostei de vôlei e por um curto período em minha fascinante trajetória esportiva, fui um jogador ligeiramente acima da média, mas esta é outra história ridícula que, felizmente, vocês jamais lerão.
Mas que enche o saco, isso enche. A quantidade de clichês despejados por narradores, comentaristas e outros bichos esquisitos do esporte supera fácil os blogs brazucas. Toda propaganda resolve tomar uma carona - e tome "Uma Olímpiada dos Preços Baixos!", "Medalha de Ouro em Liquidações!", "Suba no pódio das ofertas!" nos ouvidos. E haja paciência para ver entrevista com os primos dos vizinhos do sobrinho do irmão do pai do atleta que levou o bronze, todos chorando em sua casinha perdida em Tinguaçu do Norte. Felizmente, uma coisa boa esta última competição nos trouxe: descobrimos que tem gente mais chata do que o Galvão Bueno (de novo!!!) narrando jogos diversos.
Por outro lado, o esporte sempre foi correia de transmissão das formas mais tolas de patriotismo (preciso citar Samuel Johnson?). O ministro dos esportes e sua comitiva lá em Atenas não me deixam esquecer de que a campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro" vai ganhar ainda mais fôlego.
Deve ser por isso que o Diogo Mainardi, na Veja, disse que iria torcer contra.
Nota final - Alguém, por favor, avise ao padre irlandês Neil Horan que os melhores lugares para seus protestos é na Irlanda do Norte, no Afeganistão ou no Iraque. Como fez no ano passado no GP de Silverstone, Horan invadiu uma prova esportiva e conseguiu a proeza de avacalhar o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, que estava em primeiro lugar. Se Vanderlei iria mesmo levar o ouro ou não, ninguém jamais saberá, graças ao genial Horan.
19 de agosto de 2004
O perigo das palavras
Dando um tempo na polêmica sobre os projetos claramente autoritários de controle estatal sobre a produção cultural e o jornalismo, Lula foi se encontrar com o presidente da Costa Rica, Abel Pacheco de la Espriella, na República Dominicana - que, acredito, deve ser o penúltimo país mais miserável da América Latina, só perdendo para o Haiti. Pois Lula disse, em tom de brincadeira, segundo seus assessores, que fez "[...] agora uma viagem ao Gabão e fui aprender como é que um presidente conseguiu ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição”. Para quem não sabe da missa metade e só balança a cabeça para o que Jornal Nacional noticia, o tal presidente do Gabão (um poço de miséria assustadoramente igual a quase toda a África), Omar Bongo é um ditador com mão de ferro que não larga o poder há longos 37 anos. Acusado de assassinatos, prisões por motivos políticos e outras aberrações típidas de dirigentes vindos da escola de Fidel, Idi Amin e Stálin, serviu para (mais uma) piada sem graça alguma do nosso presidente.
Numa semana em que o governo acenou com tentativas de controle sobre a produção cultural, nada poderia ter sido mais despropositado.
Dando um tempo na polêmica sobre os projetos claramente autoritários de controle estatal sobre a produção cultural e o jornalismo, Lula foi se encontrar com o presidente da Costa Rica, Abel Pacheco de la Espriella, na República Dominicana - que, acredito, deve ser o penúltimo país mais miserável da América Latina, só perdendo para o Haiti. Pois Lula disse, em tom de brincadeira, segundo seus assessores, que fez "[...] agora uma viagem ao Gabão e fui aprender como é que um presidente conseguiu ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição”. Para quem não sabe da missa metade e só balança a cabeça para o que Jornal Nacional noticia, o tal presidente do Gabão (um poço de miséria assustadoramente igual a quase toda a África), Omar Bongo é um ditador com mão de ferro que não larga o poder há longos 37 anos. Acusado de assassinatos, prisões por motivos políticos e outras aberrações típidas de dirigentes vindos da escola de Fidel, Idi Amin e Stálin, serviu para (mais uma) piada sem graça alguma do nosso presidente.
Numa semana em que o governo acenou com tentativas de controle sobre a produção cultural, nada poderia ter sido mais despropositado.
9 de agosto de 2004
A Coluna
A COLUNA nasceu para impressionar. São textos rápidos, diretos, inteligentes e objetivos sobre todos os assuntos do momento e de grande alcance. Críticas e comentários com enfoque discutível. Do amigo Luiz Gallo, segundo o próprio - e vale muito a pena ir visitar este seu blog: http://acoluna.blogspot.com
A COLUNA nasceu para impressionar. São textos rápidos, diretos, inteligentes e objetivos sobre todos os assuntos do momento e de grande alcance. Críticas e comentários com enfoque discutível. Do amigo Luiz Gallo, segundo o próprio - e vale muito a pena ir visitar este seu blog: http://acoluna.blogspot.com
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