1 de abril de 2007

Hora de mudar

A era anacrônica chega ao fim. Era preciso dizer isto com uma pompa bem ridícula, para combinar com o novo blog: Universo Tangente. Zerei o contador.

13 de março de 2007

(Bi)Sonhos

Meus sonhos são freqüentemente bizarros. Até aí, tudo bem porque, caso contrário, não seriam delírios noturnos. Quem viu o filmaço Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças reconhece a esquisitice: num minuto, estamos no quarto, atravessamos a porta e vamos para um lago nas montanhas, onde uma mesa nos espera no meio de um lago enquanto nossa mãe assa peixes vivos num forno verde - e assim por diante.
Mas os meus têm características curiosas que acabam refletindo parte das minhas preferências. Numa noite destas, sonhei com um trailer de filme. Melhor dizendo: o sonho era o trailer de um filme. Uma mistura indigesta entre Todo Poderoso e Michael. O mais engraçado foi ter reconhecido o ator que faria o papel de Deus - Bill Nighy , o Davy Jones de Piratas do Caribe 2 e o Slartibartfast do Guia do Mochileiro das Galáxias. O sujeito vestia uma roupa meio largada, como se tivesse acabado de fugir do manicômio antes de eu entrar no cinema. E, para completar, o cidadão exibia uns gestos bem afetados. Provavelmente, no roteiro, descobriríamos que ele era mesmo um pobre coitado que fugiu do pinel e, tendo encontrado um jovem que tenta ajudá-lo, acaba por ensinar muitas coisas sobre a vida para o rapaz, alternado momentos engraçados, dramáticos e sublimes. Nossa, a idéia é tão idiota que Hollywood a compraria sem pestanejar.
Mas faço questão de ter Bill Nighy no elenco.

12 de março de 2007

Ziriguidum, telecoteco, balacobaco

Uma das grandes vantagens de se ficar menos jovem (eu ia escrever "envelhecer", mas quando alguém descobrisse que não tenho sequer quarenta, seria motivo de piada justa), é que perdemos alguns medos idiotas de poucos anos atrás. Por exemplo, o medo de ser antipático.
Eu detesto carnaval. Mas não dizia assim, letra por letra, usava um subterfúgio - "não tem nada a ver comigo", "prefiro aproveitar o tempo para descansar", "prefiro ver a maratona sobre a reprodução dos mamutes lanosos no Animal Planet". Agora, não. Eu detesto carnaval. Odeio. Abomino. Toda vez que me falam de carnaval, lembro-me imediatamente da sátira ao Sargentelli que o Luís Fernando Guimarães fazia na TV Pirata; dançando como um boneco de pau hiperativo, falava, sem alegria alguma: "Ziriguidum. Telecoteco. Balacobaco." E repetia o bordão umas mil vezes.
E veja que eu tentei gostar desta joça. Não, mentira. Homem não gosta de carnaval, gosta é de mulher. Então, íamos eu e mais um bandinho de losers a algum baile na adolescência só para voltar para casa sozinhos, sempre na esperança de que alguma menina desse mole. Como descobri logo que não precisava de carnaval para (não) pegar mulher alguma, desisti dos folguedos de momo. Então, pude desprezá-lo sem culpa alguma. Também não tenho inveja nenhuma de quem gosta, seria como sentir vontade de apreciar jiló com dobradinha no molho de abóbora.
Esta enrolação toda foi só para postar este ótimo link do Breves Notas e a matéria do Le Monde que diz o que os bananânios não querem admitir (só para assinantes do UOL).

Zerando o contador

Com um template mal e porcamente arrumado a partir de um dos modelos do Blogger, estou de volta. Pensei seriamente em apagar os posts anteriores, mas achei que seria muita frescura - o que está escrito ficará por aí mesmo. De resto, novas idéias e novo blog.

7 de abril de 2006

Não vi e não gostei

A verdade é que muitas das coisas que não gostamos jamais chegamos a experimentar; para dizer bem a verdade mesmo, nem precisaríamos. Ninguém deveria ser obrigado a comer chuchu; só de olhar para aquela pêra deformada, peluda e verde, qualquer cidadão de mínimo bom senso conclui que boa coisa nao sai dali. Este é o meu problema com o filme V de Vingança, baseado na HQ de 1984 de Alan Moore.
Os elogios concentram-se na "atualização" da trama da HQ, o que significa, basicamente, criticar George W. Bush. Senhores, convenhamos: criticar Bush Jr. é carne de vaca, qualquer um faz isso hoje em dia e há até quem viva exclusivamente disto.
Quando se diz que um filme "hollywoodiano" é corajoso ao apontar o dedinho acusador contra Washington, esquecem-se de duas coisas: Hollywood é maciçamente pró-democrata (republicanos como Arnold Schwarzenegger e o diretor John Millius, que não consegue emplacar um projetinho sequer, são exceção) e sua condescendência com o poder é tática, é uma relação sem a qual a indústria do cinemão norte-americano não sobreviveria. Há tantos filmes "patriotas" com os democratas no governo quanto durante a gestão republicana, mas há poucas produções criticando os primeiros (Segredos do Poder, com John "Clinton" Travolta, é uma delas, tímida demais), enquanto as que metem a mão na cara dos Bushs da vida ganham prêmios e notoriedade. Recentemente, entre os mais divulgados, tivemos Sob o Domínio do Mal, Syriana, Fahrenheit 9/11, Boa Noite e Boa Sorte e agora este V de Vingança.
Minha birra com a produção dos irmãos Wachowski (que levaram os fãs da FC ao paraíso com Matrix e ao inferno com Matrix:Revolutions) está na perda de foco da adaptação. V de Vingança, a HQ, é um libelo anarquista, sem meias palavras nem concessões (ainda que eu tenha aversão a arte "engajada", meu amigo, a HQ é uma obra-prima). É uma abordagem ideológica inteligente, que não evita a discussão sobre as ações de V (o personagem), ao mesmo tempo em que dispensa a "espetacularização" da ação e exibe a (Deus, me perdoe por usar esta palavra) "alienação" do povo inglês, mesmo enquanto V coloca em ação seu plano para derrubar o governo britânico (aquela cena da distrubuição das máscaras no trailer do filme me deu arrepios de tão estúpida). Eu vejo o final da minissérie com uma certa desesperança. Parece haver mais caos nas ruas do que a possibilidade da construção da sociedade anarquista desejada por V - não é à toa que Evey permanece para continuar o seu trabalho.
Reescrever a pregação anarquista de Moore para acomodar a ladainha anti-Bush que já nos acostumamos a ver não é coragem alguma; é obviedade. Moore estava preocupado com Margaret Thatcher e escreveu V de Vingança, a HQ, os irmãos Wachowski, preocupados com Bush, produziram V de Vingança, o filme.
Curiosamente, não é Thatcher quem é citada por V como exemplo de ditador que nós sempre colocamos no poder, mas sim Stálin, Hitler e cia. Alguns dos mais odiados governantes atuais teriam que comer muito arroz e muito feijão para chegar aos pés dos ditadores do passado. Provavelmente (e felizmente) não conseguirão, mesmo se quiserem.

24 de março de 2006

Hit do Verão

Viu alguém se safar de uma punição merecida? Era seu conhecido? Então dance a inédita Dança da Pizza. Sucesso garantido.

18 de março de 2006

De Damien Rice a Roupa Nova

Eu não sou músico, nem pretendo ser; sou absolutamente incapaz de dizer, racionalmente, em quê uma melodia é melhor ou mais bem trabalhada do que outra. Sou um ouvidor instintivo, portanto, meu gosto é uma mistura bizarra de erros e acertos - como o de qualquer pessoa medianamente normal. Por esta mesma razão, tenho aversões a coisas que muita gente boa considera muito boa. E gosto de músicas, conjuntos e cantores francamente estranhos ou tolos aos quais ninguém dá muita atenção.
Resumindo: presto mais atenção às letras. Daí que não consiga gostar de neo-sertanejo, pagode, axé e funk. Não é elitismo besta. É apenas rejeição a clichês repetidos até a exaustão e a predileção especial dos compositores destes estilos pelas metáforas de mau gosto ou, no caso do funk, ridículas mesmo. Claro que clichês podem ser trabalhados até parecerem originais e divertidos e o sujeito que consegue fazer esta mágica é um gênio. O problema é que a maioria não morre tentando - e tenta, tenta, tenta...
E, sim, tenho uma bronca com a banda Roupa Nova. O vocal é ótimo, a melodia é competente, os caras são profissionais, respeitam o seu público, fazem ótimos shows. Mas as letras, rapaz, uma tosqueira após a outra. Baba romântica a lá Sulivan e Massadas, por Deus. E como levar a sério uma banda que canta uma coisa dessas? Parece a descrição do Manimal no cio: "Eu só seguia meu instinto natural/Como um gambá, um guaxinim,/Um pato selvagem procurando calor,/Um urso no cio/Eu procurava amor". Tenha dó.
E finalmente chegamos em Damien Rice. Não sabe quem é? É o cantor/compositor que criou a canção de abertura do filme Closer (não assisti) e caiu nas graças da blogosfera brasileira. Mas eis que surgem Ana Carolina & Seu Jorge e Simone, assassinam Damien com duas versões xinfrins da belíssima "Blower´s Daughter" e fazem um baita sucesso, graças, em especial, a novela global das oito, que veicula a versão simonesca. Eu estava absolutamente alheio a confusão toda até ler este post do Inagaki, procurar a música na internet e ter que admitir: "Blower´s Daughter" é uma das melhores músicas que já ouvi. Quando, logo na segunda estrofe, explode o refrão "I Can´t take my eyes off you", você está fisgado, se lembra do que veio antes ("No love, no glory/No hero in her sky") e se descobre diante de um daqueles achados raros - beleza, muita tristeza, maturidade, uma certa ironia, a vida enfiada nuns poucos versos de uma canção.
Dá para entender a revolta com Seu Jorge & Ana Carolina. Como eles conseguiram escrever "É isso aí/Um vendedor de flores/Ensinar seus filhos a escolher seus amores", meu Deus? De Simone não se espera mesmo muita coisa - basta saber que ela conseguiu tornar amargo o panetone de todo brasileiro para se ter uma idéia do grau de ruindade de suas versões. E, pasmem, foi Zélia Duncan quem escreveu a besteira dela. A besteria de Ana e Jorge não tem explicação. Li que a música tocou em todo shopping no ano passado (para mim, música de shopping = música de elevador, não presto atenção, tudo parece Enya diluído em meia tonelada de água) e faz sucesso na novela (que não vejo), logo tornou-se insuportável.
Pena. "Blower´s Daughter" merecia sorte melhor. Nós também.

Fim de post: Também é verdade que bons letristas têm suas doses de bobajadas. Renato Russo cometeu isto. E também fez muito sucesso na trilha de uma novela. E é ruim, ruim de doer.

13 de março de 2006

Coisas que eu não entendo (1)

Andando à toa pelo Letras do Terra, procurando músicas com o verbo "fugir", me deparo com esta pérola da esquecível Wanessa Camargo, intitulada "Eu Não Resisto a Nós Dois" (no site, há uma baita crase no "a", mas quero acreditar que foi um erro de digitação de quem contribuiu com a letra).
Vejamos: Se eu não resisto à minha companheira e a mim mesmo, então eu seria algo como um bissexual auto-erótico?

2 de março de 2006

Antônio Fagudes, o Diabo e Bob

Finalmente percebi que o Deus interpretado por Antônio Fagundes em Deus é Brasileiro é a cara do mesmo Personagem (isso mesmo, com p maiúsculo) do desenho God, Devil and Bob.

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27 de fevereiro de 2006

Carnaval para quê?

Sim, moro em Belo Horizonte, a maior das cidades interioranas de Minas Gerais. Ao contrário de suas primas menores, Bê-Agá não tem tradição carnavalesca. Verdade que já tivemos umas escolas de samba bem grandes, coisa assim da metade de uma Mangueira (sem piadas, amigos), desfile oficial, Rei Momo, mulatas, estas bubiças todas. Agora está tudo relegado a um desfile mixuruca num bairro que ninguém conhece, com escolas que quase ninguém lembra que existem. E todo ano é a mesma palhaçada: o governo anuncia que vai investir, a TV mostra um tal "desfile do corso" com uns carros antigos e gente com cara de que está sendo torturada pelo sobrinho do Fu-Manchu. Um desastre.
Some-se a isto o fato de eu não gostar de carnaval. Isso mesmo, não gosto, não ligo, acho tudo igual, todo carro é parecido, toda bunda rebolando parece a mesma, todo trio elétrico tocas as mesmas (chatas) músicas. Se eu quisesse me misturar a um bando de sujeitos suados e fedidos pulando juntos, teria ido ao show dos Rolling Stones. Para minha sorte, minha noiva também não gosta. Somos doentes do pé. Mas bons da cabeça.
Por isso, Marcelo vem a público lançar a campanha de âmbito internacional: "Bê-Agá, Carnaval para quê?". Você, meu amigo de bom gosto que também não aprecia a folia de momo, venha para Belo Horizonte. Ruas vazias, parques mais verdes, até os bandidos vão caçar seu ganha-pão longe daqui. Existe lugar melhor? Vou abrir uma agência de turismo e agendar shows de jazz e passeios turísticos, visitas a grutas e cachoeiras. Para os radicais, uma visita ao fantástico Ribeirão Arrudas - paulistanos, se sentirão em casa, depois, claro, de observar que o Tietê é muito maior, mano.
Isso mesmo: para quem não pode ir para Campos do Jordão, Bê-Agá é a solução. E vamos parar com esta história de carnaval por aqui porque jamais vai funcionar - nem no modelo baiano, nem no carioca. Se quiserem minha conta bancária para reservar o pacote do próximo ano, estejam a vontade para me escrever.

3 de dezembro de 2005

Recado aos sociólogos de quinta categoria

Senhores pesquisadores da violência brasileira, aprendam de vez a lição dada pelos traficantes cariocas: Bandido mata povo também. Não é só a fatia corrompida da polícia e as balas que não encontraram um corpo fresquinho para se alojarem que fazem isso. Eles passarão por cima de qualquer um, tomarão todo o espaço da sociedade se necessário for, farão desta terra seu campo de batalha, tribunal e cadeira elétrica - não, eles não fazem prisioneiros.
Ou o Estado recupera o espaço perdido com o uso da força (sim, incluindo as Forças Armadas) e posterior "desfavelização", ou em breve a população das favelas e vilas das grandes cidades sofrerá um genocídio "privado". A propósito, dizem todos que o exército não pode fazer função de polícia; papel este que faz no Haiti, onde o fracassado governo atual sonhou plantar seu ingresso para uma cadeira fixa (para quê, meu Deus?) no Conselho de Segurança da ONU.
O mesmo estado que é absolutamente incapaz de cumprir sua função de zelo pela segurança do cidadão comum, aquele que tem que voltar para casa toda noite sem saber se vai flambar no meio de uma guerra de traficantes.

23 de novembro de 2005

Viva o Teatro!

A convite de um amigo que faz parte do Centro de Pesquisas Teatrais, fui à apresentação de Sarau Brasileiro, coletânea de esquetes variados de peças de Martins Pena, dirigido por Ronaldo Boschi. Um espetáculo que seria muito difícil para o público de hoje, foi rapidamente compreendido e – o mais importante – apreciado por quem pôde ir. Confesso sem pudor que uma das maiores falhas na minha caótica formação cultural é o pouco conhecimento teatral; li pouco, vi pouco, sei menos ainda. De Martins Pena conhecia as peças pequenas, de comédia de costumes, sempre com um olhar mordaz sobre os “tipos” que procurava colocar no palco. Hoje desprezado por alguns, ao menos nestes enquetes, percebi nele uma universalidade simples e ao mesmo tempo cínica e carinhosa; seus personagens são os típicos brasileiros urbanos do século XIX. Cínica porque suas pequenas tramas, artimanhas, manias e tramóias ainda se encontram por aí; carinhosa por evitar a condenação moral dos seus tipos, tratando-os com dignidade sem condescendência.
Estivesse vivo, Pena riria de todos nós. Infelizmente, o nosso tempo, politicamente correto e imbecilizado, acabaria por tentar enquadrá-lo. Ironicamente, hoje sua sorte é ser passado.
A apresentação: Perfeita. Alguns esquetes foram muito curtos e os mais bem-sucedidos foram os longos, que exigiam mais atenção do público mas, paradoxalmente, também o envolvia mais. Percebe-se a escolha cuidadosa de trechos cuja linguagem pudesse ser identificada sem grandes dificuldades pelo público atual. Foram quatro meses de ensaio, certamente exaustivos, em que o carinho pelo texto e personagens ficou explícito na dedicação dos atores. Aliás, todos ótimos. Meu amigo participou dos quatro últimos esquetes, o que lhe custou a troca permanente de figurino e muito fôlego.
Parabéns a todos!
E que agora, graças a isso, eu tome vergonha e vá ao teatro mais e mais vezes.

Sarau Brasileiro

Roteiro e direção: Ronaldo Boschi

Sarau de Abertura
O Jogo do Bicho
O Cigano (de Álvares de Azevedo)
Judas em Sábado de Aleluia
O Soldado e o Sacristão
Quem Casa Quer Casa
O Noviço

27 de setembro de 2005

Humor para inglês ver

A grande ironia é que, não fosse FHC e sua estabilidade econômica, o PT talvez não pudesse transportar tanto dinheiro vivo em malas e cuecas sem perder o seu valor. Como eles dizem, é tudo culpa do FHC mesmo.

Às vezes, eu venho de computador para o trabalho.

Às vezes, eu venho de computador para o trabalho. O único problema é que o meu não passa de um antigo K6-II 500MHz, então toda hora um chato num Pentium 4 ou Athlon XP fica buzinando e piscando o led do HD para mim. Claro que eu me vingo quando aparece um pobre coitado num 386SX bem na minha frente. Eu meto a mão no Winamp sem dó.
Claro, eu poderia ir de mainframe, mas não confio naquele monte de gente (e como cabe gente lá dentro) apertada indo de um lado para outro. Mas o pior mesmo é a turma que pega uns computadores velhos e trocam o sistema por Linux e sai por aí oferecendo carona de graça. Na verdade, eu até quis entrar num destes carros que dizem também ser muito econômicos, mas havia um bando de pingüins lá dentro e, como havia esquecido minha blusa em casa, acabei desistindo.
Preciso trocar logo de computador, pois tenho chegado atrasado sempre. Ou, o que espero, apenas um pequeno upgrade resolva o meu caso.

17 de setembro de 2005

Silêncio obsequioso

A principal razão para que um debate intelectual minimamente honesto no Brasil é quase uma impossibilidade (além, claro, da formação da maioria dos que se dizem “intelectuais”) reside na monstruosa partidarização do pensamento, característica genuinamente tupiniquim. A honestidade intelectual deveria conduzir o sujeito a um impasse que o impediria de associar-se a um partido em especial, porque não comungaria totalmente das idéias de nenhum deles. Ora estaria à esquerda da direita em algumas questões, ora à direita da esquerda. Ignorar estas ambigüidades e se filiar ou apoiar algum partido seria uma decisão puramente pessoal, não uma condição anterior às suas ambições intelectuais e muito menos medida de suas qualidades como intelectual.
No Bananão, acredita-se piamente que só existe inteligência à esquerda e que o Saci-Pererê existe. Depois de suar a camisa e adestrar os neurônios para entrar na universidade estatal, o sujeito compra o pacote completo do adesismo cego e trilha sua bem-sucedida carreira de “intelectual” pelo simples fato de estar ao lado da “galera do bem”. Leituras mal-feitas, professores militantes, equívocos repetidos à exaustão (ficou famoso o caso do professor ensinando que Marx grafava Kapital com letra maiúscula para reafirmar o poder e o domínio do capital sobre o homem até um aluno alertá-lo para o fato de a língua alemã fazer o mesmo com todos os substantivos...) e a coletividade a confirmar a excelência do mané, são os ingredientes necessários para a nossa falência como intelectuais.
Excluiu-se o debate, ou melhor dizendo, o embate de idéias. Sem um embate franco e feroz (não necessariamente mal-educado; brasileiro acha que ganha tudo no grito, mesmo estando errado; na terra de Pindorama mais vale a mentira vociferada do que a verdade polida), não há a menor possibilidade de uma vida intelectual representativa, atuante, que alimente a quem ouve, lê e participa.
Daí que estes “intelectuais em silêncio”, todos eles com seu séqüito de alunos e seguidores, colunas em jornais e revistas, onde não ficam um segundo sem repetir o mesmo discurso, não merecem mesmo ser ouvidos. Fossem honestos, estariam todos abandonando o barco do partido que apoiaram, e de forma ruidosa. Jamais imaginei dizer algo assim, mas certo estava Gabeira, quando deixou o PT depois de um chá-de-cadeira impingido por José Dirceu (aquele que diz não ser arrogante) e, depois, quando ainda encarou Severino.
Nossos intelectuais são escravos da sua escolha partidária e, graças a isso, a maioria perdeu a tão propalada honestidade por simples cegueira. Vivem num mundo próprio, alimentam os egos uns dos outros e parecem recusar-se a mergulhar na realidade que insiste, sabe-se lá o porquê, em chamá-los para pedir alguma opinião. Recentemente, a estrela da intelectualidade brazuca, Marilena Chauí, saiu-se com esta:

Nos últimos meses eu me perguntei: mas o que é que nós fizemos para sermos tão odiados? Nunca em toda a minha vida presenciei ódio igual a este. É uma coisa que faz perder a respiração. E eu sei hoje por quê: é porque nós fomos o principal construtor da democracia neste país. E não seremos perdoados por isso nunca.

Esta senhora não lê jornais (dominados pela burguesia, segundo ela), revistas (dominadas pela burguesia, segundo ela) nem assiste a TV (vade retro!). Se lesse, talvez pudesse se lembrar do ódio ao PSDB e FHC implantado pelo seu partido, em especial naquele desastrado final de segundo mandato. Talvez se lembrasse de que o seu partido barrou a reforma da previdência no tempo do “tucanato” só para aprová-lo no seu governo. Ou saberia que foi por pouco que o seu partido não apoiou Paulo Maluf para a presidência do país em 1985 por rejeição a Tancredo Neves. A democracia petista teria nos dado Maluf de presente. Ao menos, o país estaria cheio de túneis – entenda como quiser.
Mas, ao que parece, Marilena não lê sequer o que escrevem os seus companheiros de pensamento. Caso contrário, teria perdido a respiração com esta demonstração de graça e refinamento intelectual do sr. Emir Sader, em artigo defendendo a tese de que Severino é cria da “burguesia nacional e seu braço político, o PSDB” :

Severino sempre foi conhecido como corrupto. Mas era “their son of a bitch”, o corrupto – um dos tantos – de plantão no PSDB. Não serve mais e deve ser descartado. Outros aventureiros se candidatam a terem seus 15 minutos de glória. Como dizia o cartaz no casamento do filho de César Maia: “Não procriem”. É necessário castrar os tucanos, antes que povoem de novo o poder de Severinos.

Eu nem deveria comentar que, na vitória de Severino, a maioria dos votos veio da chamada “base aliada”, uma vez que a odiosa oposição burguesa de PSDB e PFL não chegava a metade dos votos recebidos pelo sujeito. Mas matemática é coisa de outro mundo para os pensadores do Bananão.
O tal silêncio dos intelectuais brasileiros não é um erro, desastre ou omissão – francamente, é um favor que eles nos farão, caso resolvam ficar calados. Se for para ler coisas assim, melhor mesmo que fiquem encastelados em suas universidades. E só voltem a falar quando houver um cenário de debate franco por aqui – ou seja...

5 de setembro de 2005

Perguntar não ofende

Nova Iorque, blecaute, agosto de 2003:




Nova Orleans, furacão Katrina, agosto de 2005:




Responda rápido: Qual das duas metrópoles acima é mais parecida com o Brasil?

23 de agosto de 2005

Convite irrecusável



Camila Parker News

Direto do Popular do Terra , com um atraso de pelo menos um mês:

O governo britânico lançou hoje uma série de propagandas contra o tabaco com a mensagem de que o fumo faz mal para a vida sexual porque torna os homens impotentes e deixa as mulheres mais feias. A campanha tem como alvo o temor dos jovens britânicos quanto a seu atrativo sexual, uma área que o governo diz ser mais efetiva do que destacar preocupações gerais com a saúde.

Atenção para a expressão mais feias... A fama das britânicas ainda vai longe.

9 de agosto de 2005

Vai ver se ela tá na esquina!

Poder e alcova são duas palavrinhas que sempre andaram juntas, de dedinhos entrelaçados, qualquer macaco-prego sabe disso. Cafetinas que servem aos impulsos dos homens da cúpula (atenção: trocadilho implícito, de mau gosto e desnecessário) acompanham este mercado com atenção e, digamos, presteza invejáveis.
O nome da grande senhora de Brasília acaba de ganhar a boca do povo no rastro da CPI dos Correios, já que o deputado Demosthenes Torres (PFL) perguntou à sócia de Marcos Valério, Simone Vasconcelos, se ela conhecia a tal Jane Mary Corner.
De uma coisa temos certeza: Aldo Rebelo não a conhecia. Caso contrário, já teria virado Jane Maria da Esquina há muito tempo..

O orçamento dos universitários

O governo Lula resolveu aumentar o percentual de recursos investidos no ensino superior de 70% para 75% do Orçamento destinado a educação. E não adianta reclamar, porque a nossa digníssima Constituição diz que cabe, prioritariamente, aos municípios o investimento em ensino de primeiro grau e aos estados em segundo.
O aumento ajudará os pobres e geniais alunos das universidades brasileiras a repetir gestos como este aqui ou este aqui(*).